O dirigente nacional do MST Gilmar Mauro avalia que as eleições de 2026 ocorrem em um ambiente de baixa politização, embora coloquem no centro, em sua interpretação, a disputa entre fascismo e democracia. Ele atribui o esvaziamento do debate político ao avanço do individualismo, à perda de consciência de classe e à predominância de uma visão segundo a qual cada pessoa deve resolver sozinha os próprios problemas.
Em participação na Rádio Brasil de Fato neste domingo (4), Gilmar afirmou que a falta de interesse pela política não eliminou as contradições sociais. Para ele, a principal contradição conjuntural da eleição é a oposição entre fascismo e democracia. A avaliação não substitui, em sua análise, conflitos que considera estruturais, como a relação entre capital e trabalho, a disputa entre imperialismo e soberania dos países periféricos e o confronto entre o agronegócio e a reforma agrária popular.
Individualismo e frente democrática
O dirigente relaciona a dificuldade de mobilização ao fortalecimento da meritocracia e do pensamento liberal. Ao recuperar uma formulação associada à ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, disse: “Não existe sociedade, existem indivíduos”. Para ele, essa lógica reduziu as conversas sobre a eleição em espaços cotidianos, como famílias, bares e ruas, enquanto a propaganda se concentrou principalmente nas candidaturas proporcionais.
Na conjuntura atual, Gilmar considera possível a formação de uma frente democrática que reúna grupos com diferenças profundas, incluindo comunistas, socialistas, social-democratas, reformistas e setores capitalistas. A união não eliminaria os conflitos entre essas forças nem evitaria tensões em um eventual governo, mas seria necessária, em sua avaliação, para enfrentar o avanço da extrema direita.
Pressão por ajuste fiscal
Gilmar também associa a disputa eleitoral à pressão de setores do grande capital, especialmente do capital financeiro e dos grandes meios de comunicação, por uma política de ajuste fiscal. Ele afirmou que esses grupos querem pressionar o governo de Lula por um ajuste de 3%, o que equivaleria a 300 bilhões. Na leitura do dirigente, os recursos poderiam sair de áreas como saúde, educação e reforma agrária.
Para ele, essa pressão continuaria depois do resultado eleitoral, em meio a uma crise do capitalismo que tende a se aprofundar nos próximos anos. O dirigente também relaciona esse processo à atuação do capital financeiro e à influência dos Estados Unidos sobre os países latino-americanos.
Gilmar descreve o momento como o “final de um ciclo”, mas ressalta que a transição não ocorreria de forma automática. A eleição poderia abrir tempo para a reorganização das organizações populares, sem resolver as contradições acumuladas. Ele avalia que estruturas criadas em um período de ampliação de direitos sociais já não respondem às condições atuais e defende que essas organizações deem um salto de qualidade para disputar os caminhos que poderão se abrir, tanto para um projeto popular e progressista quanto para um projeto de direita.



