Três candidatos a deputado nas eleições de outubro foram incluídos na Lista Suja do trabalho escravo, cadastro mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os casos envolvem resgates de trabalhadores em propriedades no Pará, no Acre e no Amazonas, com registros de falta de atendimento médico, alojamentos inadequados, exposição a agrotóxicos e contratação de um menino de 13 anos.
Wanderley Dias Vieira, conhecido como Dr. Wanderley, disputa uma vaga de deputado estadual no Pará pelo PL. Miguel Gomes Filho, o Miguelito, concorre a deputado federal pelo PDT no mesmo estado. José Lopes Júnior, o Zé Lopes, vereador de Rio Branco, tenta chegar à Assembleia Legislativa do Acre pelo Republicanos.
A Lista Suja é atualizada semestralmente pelo governo federal desde novembro de 2003. Ela reúne empregadores responsabilizados pelo MTE depois da apresentação de defesa e da possibilidade de recurso. A inclusão é uma decisão administrativa do ministério e não equivale a uma condenação criminal.
Dr. Wanderley teve duas propriedades incluídas no cadastro
Dr. Wanderley aparece na relação atual, publicada em abril de 2026, por causa do resgate de dois trabalhadores na Fazenda Primavera, em São Félix do Xingu, em 2023. O processo administrativo terminou em setembro de 2024, e o registro da propriedade foi incorporado ao cadastro em abril de 2025.
O relatório de fiscalização descreveu condições precárias de moradia. Um trabalhador dormia na varanda; outro ocupava um quarto com abertura por onde entravam a cabeça de bois e galinhas. Agrotóxicos eram mantidos junto aos pertences dos empregados e próximos aos alimentos. Também faltavam material de primeiros socorros, água limpa, sabão e papel higiênico em um dos banheiros.
Um dos trabalhadores relatou que fraturou o antebraço direito após ser atingido por um coice de égua. Segundo o depoimento registrado na fiscalização, ficou 90 dias sem trabalhar e sem receber. Não houve emissão de Comunicação de Acidente de Trabalho.
A inclusão de Dr. Wanderley não é a primeira. Em dezembro de 2004, ele entrou na Lista Suja por causa da Estância do Pontal, também em São Félix do Xingu, onde 11 trabalhadores foram resgatados no ano anterior. Os alojamentos tinham cobertura de plástico preto, chão de terra e nenhuma instalação sanitária. A água para consumo era retirada de um córrego.
Um dos trabalhadores apresentava feridas nos dois pés e tinha dificuldade para caminhar, sem ter recebido tratamento adequado. Os fiscais também apontaram servidão por dívida, após depoimentos sobre a atuação de um intermediário que vendia mercadorias sem informar os preços e dizia que os trabalhadores não poderiam deixar a propriedade enquanto tivessem dívidas.
Zé Lopes foi incluído após resgate no Amazonas
Zé Lopes entrou na Lista Suja depois de uma fiscalização realizada em 2012 em duas fazendas suas, Mustafa e FAM, em Boca do Acre, no Amazonas. A operação resgatou 26 trabalhadores, entre eles um menino que roçava o pasto com foice e manuseava agrotóxicos sem equipamento de proteção.
Os auditores também encontraram trabalhadores dormindo em abrigos sem instalações sanitárias. Oito pessoas foram localizadas na carroceria de uma picape na BR-317, quando retornavam da Fazenda FAM. Os documentos registraram a retirada de trabalhadores de diferentes propriedades do grupo durante a operação, em veículos como caçambas e caminhonetes.
Zé Lopes declarou patrimônio de R$ 32,6 milhões ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre os bens estão R$ 7 milhões em gado e a Fazenda Santana, de 5 mil hectares, avaliada em R$ 6,3 milhões.
O candidato afirmou que foi absolvido em processo judicial relacionado à fiscalização e que adotou equipe de segurança do trabalho, vistorias periódicas e capacitações. Sobre as autuações ambientais, disse que os processos ainda estão em discussão.
Miguelito teve duas inclusões na Lista Suja
Miguelito foi incluído no cadastro em julho de 2008, quando presidia a Câmara Municipal de Marabá e era filiado ao PP. O registro se referia ao resgate de três trabalhadores da Fazenda do Miguelito, em Itupiranga.
Em novembro de 2016, uma nova fiscalização encontrou dez empregados sem registro na Fazenda Abaram, também em Itupiranga. Nove trabalhadores foram resgatados. Parte deles e de suas famílias vivia em um barracão de madeira construído sobre um abrigo de porcos. O local tinha frestas nas paredes e no piso, permitia a entrada de chuva e apresentava fezes de ratos.
Outra família ocupava uma casa parcialmente demolida. Porcos e galinhas circulavam pelas moradias, e a água para beber e tomar banho vinha de uma grota acessível aos animais, sendo bombeada sem tratamento para reservatórios.
Miguelito informou que havia delegado a administração ao gerente. Na ocasião, reconheceu os vínculos, comprometeu-se a regularizar os registros e pagou as verbas rescisórias. Depois do processo administrativo, seu nome voltou à Lista Suja em outubro de 2018.
O presidente do Republicanos no Acre, deputado estadual Roberto Duarte, afirmou que a inclusão na Lista Suja é uma medida administrativa e a distinguiu da condenação criminal com trânsito em julgado exigida pela Lei da Ficha Limpa para gerar inelegibilidade. O partido de Miguelito não informou como avaliava as duas inclusões do candidato.

