SÃO PAULO — O cancelamento do último debate da Rede Globo antes do primeiro turno não deve alterar a decisão dos eleitores, segundo avaliações dos cientistas políticos Mateus de Albuquerque e Adriano Oliveira. Para os dois professores, a eleição está marcada por votos cristalizados e será definida por uma parcela pequena do eleitorado, em uma disputa de alta polarização.
O debate não ocorreu nesta quinta-feira (1º), depois de uma sequência de decisões judiciais e desistências. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) havia informado na quarta-feira (30) que não participaria e confirmou presença no podcast Flow. Flávio Bolsonaro (PL), que havia confirmado participação, desistiu depois que decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) autorizaram a entrada de Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) no programa. Uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também proibiu a exibição do púlpito vazio de Lula.
A disputa dentro da direita
Albuquerque, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), avaliou que Flávio preferia um debate com Lula ou apenas candidatos de direita que não o confrontassem. Para o cientista político, a presença de Renan Santos alterou esse cenário e expôs Flávio a uma disputa dentro do próprio campo político.
Embora considere que Santos tenha pouca força eleitoral, Albuquerque destacou sua presença nas redes sociais e entre um público mais jovem e masculino. Na avaliação do professor, a desistência pode ser interpretada como uma fuga diante de um adversário com esse perfil. Santos, ainda segundo o analista, sabe que não vencerá, mas busca ocupar espaço na direita mirando 2030.
Adriano Oliveira, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), afirmou que o cancelamento será assunto para a imprensa, as redes sociais e os cientistas políticos, mas não deverá interferir no voto. Ele descreveu a disputa como uma eleição do medo, na qual vencerá quem conseguir apresentar menor rejeição.
As campanhas de Lula e Flávio, segundo Oliveira, construíram narrativas consistentes, mas não conseguiram ampliar a rejeição do adversário. Para ele, isso reforça a polarização e a consolidação das escolhas eleitorais. O professor também avaliou que as candidaturas apresentadas como terceira via não conseguiram romper esse quadro por terem se aproximado do bolsonarismo. A tendência, disse, é de uma eleição semelhante à de 2022.
São Paulo no encerramento das campanhas
Os dois principais candidatos escolheram São Paulo para concluir suas campanhas. Lula fará um ato na capital ao lado de Fernando Haddad (PT), candidato ao governo, enquanto Flávio Bolsonaro estará no interior do estado com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), favorito à reeleição.
Oliveira considerou previsível a escolha porque São Paulo é o maior colégio eleitoral do país. Na avaliação dele, Lula precisa ampliar sua votação no estado, enquanto Flávio depende de Tarcísio para vencer a eleição. O professor também apontou que o comportamento do governador em um eventual segundo turno será relevante para a disputa política futura.
Albuquerque afirmou que as campanhas foram mornas durante boa parte do período e tiveram pouca conexão com as ruas. Por isso, a estratégia das horas finais passou a priorizar atos presenciais. O professor também criticou a postura da Rede Globo e afirmou que o debate foi cancelado depois da desistência de Flávio, e não apenas por causa das decisões judiciais.


