O documentário NAZA, dirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, estreia em 8 de outubro com depoimentos anônimos de 24 militares e integrantes da inteligência de Israel. Os entrevistados descrevem operações na Faixa de Gaza e afirmam que mortes de civis apresentadas como dano colateral eram, em diferentes situações, consideradas nos cálculos de ataques contra alvos individuais.
O título do filme é formado pela sigla hebraica “Nezek Agavi”, expressão traduzida como “dano colateral”. O termo é usado em contextos militares para designar a morte de civis durante bombardeios. A produção questiona essa caracterização ao mostrar relatos sobre sistemas de inteligência que indicariam quantos civis poderiam morrer durante uma operação contra uma única pessoa supostamente ligada ao Hamas.
Um dos trechos de divulgação apresenta o depoimento de um homem que afirma ter recebido autorização para matar pelo menos 500 “danos colaterais” em um ataque cujo objetivo era atingir um único alvo. Segundo ele, não havia como determinar quantas das vítimas seriam crianças.
Premiação e reação em Israel
Abraham afirmou, ao receber o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza, que os oficiais entrevistados descreveram um massacre sistêmico. O documentário também teve uma ovação de 25 minutos no festival, superando o tempo registrado por “A Voz de Hind Rajab”, outra produção sobre a morte de palestinos.
Depois do lançamento, os diretores passaram a enfrentar ameaças de perda da cidadania israelense. O ministro da Cultura de Israel, Miki Zohar, disse na rede social X que havia iniciado o procedimento e classificou o filme como “vil”, “chocante” e produzido para obter aplausos do mundo antissemita.
Benjamin Netanyahu afirmou que determinou a apresentação de uma lei para revogar a cidadania de pessoas que difamassem soldados das Forças de Defesa de Israel. A declaração foi divulgada por Zohar, que também agradeceu ao primeiro-ministro por apoiar o processo.
Familiares de Rachel Szor foram alvo de protestos. Dezenas de pessoas se reuniram diante da casa dos pais da diretora, e parte dos manifestantes gritou por “pena de morte aos traidores”. O jornalista Yehuda Schlesinger, do Canal 14, defendeu que os cineastas fossem “perseguidos” e “caçados”.
O Exército de Israel questionou a legitimidade da produção por causa do anonimato dos depoimentos. Ao mesmo tempo, informou que o filme será usado em investigações sobre possíveis irregularidades.
Relação com “No Other Land”
Yuval Abraham e Rachel Szor se tornaram conhecidos internacionalmente em março de 2025, quando “No Other Land” venceu o Oscar de Melhor Documentário em Longa-Metragem. O filme foi codirigido pelos palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal e acompanhou, entre 2019 e 2023, a resistência de Adra e de sua comunidade à expulsão de seu território na Cisjordânia.
Abraham fala árabe e acompanhava havia anos a situação na região. Ele se tornou amigo de Adra, e os dois decidiram registrar a história de Masafer Yatta, área de aldeias ao sul de Hebron onde Adra cresceu e enfrentou a atuação das forças militares israelenses.
O filme termina com a morte de Zakaria al-Adra, primo de Basel Adra. Dias depois da ação do Hamas em 7 de outubro de 2023, ele foi baleado por soldados israelenses na Cisjordânia enquanto estava desarmado.
Depoimentos e investigações
“NAZA” sustenta seus relatos em investigações iniciadas por jornalistas palestinos e israelenses. As tecnologias descritas pelos entrevistados seriam capazes de monitorar prédios durante semanas e captar choros de bebês e outras vozes. Mesmo com informações sobre a presença de muitos civis, as operações prosseguiriam com dezenas de mortes para atingir um único alvo, geralmente apontado como combatente de baixa patente do Hamas.
Os depoimentos foram gravados em hebraico, no topo de prédios de Jerusalém. As vozes receberam alterações feitas com inteligência artificial para dificultar a identificação dos agentes. A produção também tem coprodução do jornal britânico The Guardian, cuja equipe de jornalistas investigativos publicou declarações em defesa da apuração.
O Ministério da Saúde de Gaza afirma que mais de 73 mil palestinos morreram em decorrência dos ataques israelenses durante a guerra. Mais de 174 mil pessoas ficaram feridas.


