O salão da Assembleia das Nações Unidas ficou vazio durante o discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Delegações de diversos países, entre elas a do Brasil, deixaram o local enquanto ele falava. Apesar do impacto simbólico da cena, Netanyahu continuou o pronunciamento com tranquilidade, defendeu a ação de seu governo em Gaza, criticou o prefeito de Nova York e agradeceu o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Para a analista Ana Carolina Marson, professora de relações internacionais, a saída dos representantes revela a falta de apoio internacional à política expansionista de Israel. Ela ressalva, porém, que a manifestação não alterou o comportamento do primeiro-ministro nem produziu uma resposta concreta no momento do discurso.
“Existe um isolamento israelense, mas ele tem o apoio dos EUA e Netanyahu se sente muito à vontade para continuar agindo em Gaza”, afirmou Marson. Na avaliação dela, o episódio ocorreu em meio à crise do multilateralismo e funcionou principalmente como símbolo. A analista também defendeu que alguns Estados adotem medidas de forma mais coercitiva diante da situação na Palestina.
Crise nas Nações Unidas
Marson relaciona o episódio às dificuldades históricas da Organização das Nações Unidas. Criada em 1945, a instituição enfrentou, segundo ela, a paralisação do Conselho de Segurança durante a Guerra Fria, em razão do embate entre Estados Unidos e a então União Soviética.
A professora citou ainda conflitos e genocídios ocorridos a partir da década de 1990, como os de Ruanda, Bósnia e Somália. Na avaliação dela, eram situações para as quais a ONU deveria estar preparada, mas não conseguiu agir. Por isso, considera que a inação da organização é histórica e aparece agora de maneira mais evidente.
A analista também mencionou 2003, quando o Conselho de Segurança discutiu a guerra ao terror de George W. Bush e o processo de invasão do Iraque. Para ela, o descaso das potências com as organizações internacionais e o desconforto dos países do sul global estão ligados ao antigo pedido brasileiro de reforma do Conselho de Segurança, além das crises do multilateralismo e da globalização.


