PORTO ALEGRE — O músico uruguaio Daniel Drexler afirmou que a relação entre o Rio Grande do Sul, o Uruguai e outros países da Ibero-América ainda não aproveita todo o potencial cultural da região. A declaração foi dada nesta quarta-feira (23), em Porto Alegre, onde ele se apresentou com Vitor Ramil no show de inauguração do Teatro Bancários RS.
Para Drexler, a área formada pelo estado brasileiro e pelo país vizinho ocupa uma posição estratégica nas conexões entre a América lusófona e a América hispânica. “A gente não está na periferia, a gente está no centro de uma nova realidade”, disse. Ao resumir essa visão, o músico afirmou: “O nosso norte é o Sul”.
A reflexão está ligada ao conceito de templadismo, desenvolvido por Drexler a partir das características culturais das regiões de clima temperado do Sul da América Latina. O conceito dialoga com a Estética do Frio, formulação associada à obra e à trajetória de Vitor Ramil.
Uma região de transições
Drexler contou que, durante a infância, teve contato principalmente com a música brasileira produzida no eixo Rio-São Paulo-Salvador-Minas Gerais. A descoberta do trabalho de Ramil, em 2003, durante uma viagem a Buenos Aires, fez com que ele se aproximasse de um universo musical que estava geograficamente próximo, mas até então permanecia pouco conhecido para ele.
Na avaliação do músico, a região reúne transições climáticas, demográficas e topográficas, além de três fronteiras políticas e uma fronteira linguística entre o espanhol e o português. Apesar dessas divisões, ele considera que existe uma unidade cultural capaz de gerar novas relações.
A aproximação com o Rio Grande do Sul também alterou a maneira como Drexler percebe o próprio território. Antes, segundo ele, sua relação com o espaço sul-americano estava concentrada na Argentina e no restante da América Latina. Depois dos shows no estado, passou a manter vínculos que ultrapassam a atividade profissional, incluindo visitas para casamentos de amigos e comemorações de aniversários.
O músico relacionou essa mudança às reflexões do geógrafo Lucas Panitz sobre a influência da paisagem na criação artística e sobre o movimento inverso, em que a produção artística também gera espaço. Para Drexler, o clima, a demografia e a topografia estão presentes no modo como escreve, toca e canta.
Festivais e encontros
Drexler citou o Festival La Serena como uma manifestação desse potencial de conexão. O evento ocorre em La Paloma, no Uruguai, local onde o músico passou parte da infância e que fica a 100 quilômetros da fronteira com o Brasil.
A iniciativa começou como um encontro entre músicos convidados para passar o período de férias em La Paloma. Com o tempo, tornou-se um evento que reúne 800 pessoas, com participantes de lugares como Córdoba, Paysandú, Santos, Porto Alegre, Pelotas e Uruguaiana. Para o artista, o festival mostra como uma articulação local pode produzir relações mais amplas entre Brasil, Uruguai, Portugal e Espanha.
Ele também mencionou o Chisme Festival, o Festival A caminho e o Festival Akará, realizado em Santa Catarina, como parte de um movimento de aproximação que ocorre em diferentes frentes. Drexler afirmou que esses projetos interagem entre si e ampliam o alcance de cada iniciativa.
O músico voltará a Porto Alegre no dia 28 de novembro, para participar do Chisme Festival.
Medicina, pesquisa e música
Filho de médicos e irmão de Jorge Drexler, Daniel construiu uma trajetória dividida entre a medicina, a pesquisa sobre audição e a música. Ele afirmou que a convivência com o som influenciou sua atuação médica e que a ideia para um tratamento de zumbido surgiu durante a mixagem de seu primeiro disco, “La Llave en la Puerta”.
A relação entre as duas áreas, segundo Drexler, também ocorre no sentido inverso: conhecimentos adquiridos na música influenciam sua prática médica. Aos 57 anos, ele disse continuar atuando nos dois campos e buscar novas motivações para manter a curiosidade.
O projeto de tratamento de zumbido do ouvido do qual participa, afirmou, tem quatro patentes nos Estados Unidos e duas habilitações da FDA. O atendimento alcança pacientes em 12 países da América do Sul, da América Central, dos Estados Unidos e também da Espanha.
A influência de Rubén Rada
Drexler também falou sobre Rubén Rada, cantor e compositor uruguaio que morreu recentemente. Para ele, Rada foi uma presença constante na formação de várias gerações e na vida cultural do Uruguai, com músicas ouvidas nas ruas, na televisão e em botecos de Montevidéu.
Além da relação artística, Drexler acompanhou Rada no consultório por causa de um problema auditivo. A proximidade nos últimos anos reforçou o impacto da morte do músico, que ele descreveu como uma sensação de perda coletiva.
Ao retomar sua defesa de uma integração maior entre os territórios do Sul, Drexler afirmou que a mudança de perspectiva poderia alcançar projetos musicais, industriais e científicos. Para ele, reconhecer a região como centro de novas conexões é o primeiro passo para ampliar suas possibilidades.


