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Empresariado brasileiro prioriza renda financeira e exportação de commodities

A perda de densidade industrial e o baixo investimento privado em inovação ajudam a explicar a ausência de um projeto nacional de desenvolvimento.

Empresariado brasileiro prioriza renda financeira e exportação de commodities

A economia brasileira se afastou de um projeto nacional de desenvolvimento à medida que grandes parcelas do empresariado passaram a encontrar retornos mais atraentes na exportação de produtos primários, na renda financeira, na valorização patrimonial e no controle de concessões. Essa mudança ajuda a interpretar a disputa eleitoral de 2026 e a resistência de setores empresariais a um eventual quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo quando seus governos foram lucrativos para bancos, indústria e agronegócio.

A explicação não está apenas no antipetismo, associado à origem operária e pobre de Lula e ao uso do discurso anticorrupção como linguagem moral de rejeição. Também envolve a transformação da estrutura econômica brasileira e a formação de uma fração dominante do empresariado que pode obter ganhos sem depender da produção de tecnologia, da diversificação industrial ou da disputa por mercados internacionais.

Uma economia mais dependente de produtos primários

Dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a UNCTAD, mostram que as commodities passaram de 66,7% das exportações brasileiras entre 2012 e 2014 para 75,3% entre 2021 e 2023. No mesmo intervalo, a participação da indústria no emprego recuou de 24% para 21%, enquanto aumentou a renda proveniente de recursos naturais.

Pelos critérios da UNCTAD, um país é considerado dependente de commodities quando esses produtos superam 60% das exportações. O Brasil está acima desse patamar. Essa inserção garante dólares, superávits e lucros para segmentos como agronegócio, mineração e petróleo, que podem reunir empresas modernas e produtivas. O problema está em não converter essa riqueza em diversificação econômica e domínio de novas tecnologias.

O país exporta recursos naturais e importa máquinas, componentes, medicamentos, semicondutores, equipamentos digitais e outros bens de maior intensidade tecnológica. Entre os demais Brics, aparece entre as economias que vendem principalmente produtos primários e compram bens industrializados mais complexos. Trata-se de uma posição confortável para exportadores, mas insuficiente para criar empregos qualificados e assegurar autonomia diante das grandes potências.

Inovação concentrada no discurso

O investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento permanece abaixo do necessário para alterar essa estrutura. Em 2022, o Brasil destinou aproximadamente 1,19% do PIB a essa área, e o setor empresarial respondeu por 0,63%. A média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico chegou a 2,7% do PIB em 2024.

Informações do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação indicam que o investimento empresarial brasileiro em pesquisa e desenvolvimento cresceu apenas cerca de 6% em termos reais entre 2014 e 2023. O diagnóstico oficial é que o esforço público se aproxima mais dos padrões internacionais do que o privado.

A Pesquisa de Inovação do IBGE registrou que as indústrias com cem ou mais empregados aplicaram somente 0,70% da receita líquida em pesquisa e desenvolvimento em 2023. Das 9.821 empresas desse grupo, 3.367 fizeram gastos internos nessa atividade. Em 2024, a taxa de inovação caiu pelo terceiro ano consecutivo.

Há exceções em áreas como Embraer, saúde, máquinas e equipamentos, petróleo em águas profundas, biocombustíveis e segmentos digitais. Esses casos, porém, não definem a orientação predominante do grande capital brasileiro. O quadro geral é de investimento insuficiente e dependência expressiva do Estado. A Lei do Bem é o principal instrumento público de apoio à inovação usado pelas empresas, enquanto BNDES, Finep, universidades e institutos públicos assumem parte relevante do risco tecnológico.

Quando o patrimônio financeiro se torna mais atraente

A baixa disposição para investir não decorre apenas de uma suposta falta de empreendedorismo. Em uma economia marcada por juros reais elevados, patrimônios podem gerar retornos por meio da compra de títulos, da aplicação em fundos e da participação em negócios regulados. Empresas não financeiras também passaram a administrar recursos com uma lógica financeira, priorizando remuneração de curto prazo em vez de projetos industriais longos e sujeitos ao fracasso.

Estudos sobre companhias brasileiras de capital aberto relacionam a financeirização à redução do investimento produtivo. O mesmo empresário pode criticar os juros por encarecerem máquinas e, ao mesmo tempo, beneficiar-se deles como proprietário de patrimônio financeiro.

Desenvolver um medicamento ou equipamento exige anos de pesquisa e envolve incerteza. Comprar um ativo, explorar uma concessão ou receber juros oferece um retorno mais previsível. A decisão empresarial deixa de se concentrar na atividade capaz de ampliar o domínio tecnológico do país e passa a considerar a remuneração mais alta no próximo balanço.

As privatizações também abriram caminhos de acumulação. Empresas públicas reúnem não apenas instalações, máquinas e ações, mas décadas de investimentos, equipes técnicas, patentes, informações estratégicas, reservas naturais, redes de fornecedores, capacidade de planejamento e posições consolidadas no mercado.

A transferência de uma estatal, portanto, envolve um patrimônio material e imaterial construído pela sociedade. Embora existam privatizações com resultados positivos e empresas públicas ineficientes, também houve aquisições financiadas por bancos públicos, ativos que se valorizaram rapidamente e concessões nas quais o Estado continuou fornecendo crédito, garantias e infraestrutura.

Nesse modelo, o mercado não substitui integralmente o Estado. O setor privado se apropria de ativos enquanto o poder público permanece responsável por parte dos riscos. Para grupos habituados a essa dinâmica, um governo que preserve empresas públicas, fortaleça bancos estatais e vincule concessões a objetivos nacionais pode parecer um obstáculo. Um governo privatista, ainda que antidemocrático e subordinado a interesses estrangeiros, pode oferecer oportunidades imediatas.

O conflito em torno do desenvolvimento

Um projeto desenvolvimentista exigiria investimento público e privado, ciência, educação, planejamento e empresas nacionais capazes de competir no exterior. Também dependeria de um mercado interno sustentado por trabalhadores mais qualificados e bem remunerados, que são consumidores, técnicos, pesquisadores e cidadãos.

A compressão extrema dos salários pode ampliar margens no curto prazo, mas limita a demanda, a produtividade e a capacidade tecnológica. Além disso, qualquer estratégia de desenvolvimento produz disputas sobre o financiamento de infraestrutura, pesquisa e educação, a distribuição dos ganhos de produtividade e as contrapartidas exigidas das empresas apoiadas pelo Estado.

É nesse ponto que Lula aparece, para esses setores, como uma ameaça. Não por representar a expropriação de empresas, mas por manter a possibilidade de associar crescimento a emprego, salário, política social, conteúdo nacional e soberania.

Flávio Bolsonaro representa o caminho oposto: uma combinação de privatização, abertura de ativos ao capital estrangeiro, enfraquecimento do trabalho e alinhamento aos Estados Unidos. Para uma burguesia sem projeto nacional, a subordinação dessa proposta pode deixar de ser vista como contradição e tornar-se uma oportunidade de negócios.

Isso não significa que todas as empresas ou todos os empresários tenham abandonado o desenvolvimento. Há companhias inovadoras, industriais comprometidos com o país e setores interessados em ciência, tecnologia e qualificação profissional. A questão central é a hegemonia: as frações mais poderosas do empresariado parecem cada vez menos organizadas em torno de uma economia industrial e tecnologicamente soberana.

A escolha eleitoral pode ser compreendida nesse contexto. Quem não pretende produzir o futuro tem menos motivos para defender um projeto nacional e pode aceitar um governo autoritário, corrupto e subordinado, desde que ele preserve a propriedade, comprima o trabalho e abra novas formas de apropriação privada.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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