A fotografia de Delcy Rodríguez ao lado de Donald Trump desencadeou uma disputa de interpretações nas redes sociais venezuelanas. O encontro ocorreu na noite da terça-feira (22), depois do discurso do presidente dos Estados Unidos na Organização das Nações Unidas (ONU), e foi apresentado pela presidenta em exercício como uma conversa sobre relações bilaterais e cooperação.
Rodríguez classificou a reunião como histórica em uma publicação no X. Na mensagem, afirmou que os dois discutiram energia, mineração e segurança. A imagem mostra os dois sorrindo e, nas primeiras dez horas, recebeu pouco mais de 46 mil curtidas no perfil da presidenta.
O ministro das Comunicações, Miguel Ángel Pérez Pirella, chamou a fotografia de “a foto do dia”. Parte dos chavistas também celebrou o encontro como um sucesso da diplomacia de paz. Até a manhã desta quarta-feira (23), porém, nenhuma das principais lideranças ligadas ao governo em exercício havia repostado a publicação.
Reações ao encontro
A repercussão se espalhou por meio de memes, com manifestações de celebração, crítica, vergonha e orgulho. As forças chavistas convocaram uma manifestação para esta quarta-feira, com o objetivo de respaldar Rodríguez no dia em que ela falará no plenário da Assembleia Geral da ONU.
A reunião também foi associada ao contexto da agressão militar estadunidense à Venezuela em 3 de janeiro deste ano. O episódio deixou mais de uma centena de mortos e terminou com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, a deputada Cilia Flores. O encontro entre Rodríguez e Trump é o primeiro desde então.
O cientista político venezuelano William Serafino interpretou a fotografia dentro de uma sequência histórica de disputas sobre a soberania venezuelana. Ele relacionou a tentativa de domínio sobre o país à atualização da Doutrina Monroe e citou o bloqueio naval de potências europeias contra a Venezuela em 1902-1903, além da queda de Cipriano Castro em 1908.
Para Serafino, a intervenção militar direta representaria a entrada em cena de um novo corolário associado ao governo Trump. Em outra análise, ele descreveu a humilhação como resultado histórico de erros de elites políticas e afirmou que a recuperação de uma posição de maior força exigiria compreender o enfraquecimento da soberania do país.
O significado do gesto
Outro ponto de discussão foi o sinal feito por Rodríguez em uma das imagens divulgadas pela Presidência venezuelana. Com a mão esquerda, ela forma um “V”; com a direita, mantém o punho fechado. Usuários associaram o gesto ao que Maduro teria feito ao desembarcar em Nova York, depois de ser sequestrado em Caracas pelas forças estadunidenses.
William Castillo Bollé, vice-ministro de Políticas Antibloqueio do Ministério de Economia e Finanças, publicou a fotografia ao lado de uma imagem recente de Maduro na prisão e perguntou: “Onde eu vi esse gesto antes?”. Internautas também observaram que os sinais, embora não tenham surgido com a corrente política venezuelana, foram incorporados à identidade chavista.
O apresentador de televisão e ex-deputado constituinte Mario Silva, crítico do governo em exercício, contestou a cena. Em vídeo publicado na manhã desta quarta-feira, disse ter pensado inicialmente que a imagem fosse produzida por inteligência artificial e questionou a presença de Rodríguez ao lado de Trump, a quem atribuiu os ataques que mataram mais de 100 compatriotas, incluindo 32 cubanos.


