NOVA YORK — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22) o debate geral da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. O Brasil mantém a tradição de iniciar a sessão, e Lula foi o primeiro chefe de Estado a discursar. Em sua décima abertura, afirmou que este é o momento mais crítico da ONU desde que ocupou a tribuna pela primeira vez, em 2003.
O discurso foi marcado por críticas à paralisia do Conselho de Segurança, ao direito de veto das grandes potências e à incapacidade da organização de proteger populações vulneráveis. Lula disse que 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial e pediu uma reunião dos líderes dos países que integram o Conselho de Segurança.
Guerras e crises internacionais
Ao tratar do Oriente Médio, Lula condenou o genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza e mencionou os atos terroristas do Hamas que atingiram civis israelenses. Também criticou a perseguição ao Tribunal Penal Internacional e à relatora especial da ONU Francesca Albanese. Para o presidente, os assentamentos ilegais na Cisjordânia dificultam a solução de dois Estados.
Lula afirmou ainda que o Estreito de Ormuz deveria continuar sendo uma passagem para o comércio internacional, e não uma trincheira de guerra. Sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia, defendeu a diplomacia e citou o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil e China.
Na América Latina e no Caribe, o presidente condenou ingerências externas, zonas de influência e investidas neocoloniais. Disse que o povo venezuelano deve definir o próprio destino, criticou a restrição à participação da oposição nas eleições da Nicarágua e mencionou as crises no Haiti e em Cuba.
Segurança, clima e tecnologia
O presidente também apresentou ações brasileiras contra o crime organizado. Citou a criação, em Manaus, do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, que reúne autoridades dos nove países amazônicos, e afirmou que 2025 teve a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil. Segundo Lula, houve recorde de apreensão de drogas, bens e recursos ilícitos. Ele também mencionou a Lei Antifacção, que prevê penas superiores às do terrorismo para o crime organizado.
Na agenda ambiental, Lula defendeu a redução das emissões, a proteção da Amazônia e a exploração de minerais críticos e terras raras com geração de valor, transferência de tecnologia e atendimento a setores estratégicos nacionais. Disse que o desmatamento caiu pela metade na Amazônia e alcançou o menor nível em 11 anos.
O presidente cobrou a regulamentação das big techs e da inteligência artificial, além de criticar a indústria das bets e defender a proteção de crianças, adolescentes, mulheres, artistas e criadores de conteúdo audiovisual. Também afirmou que o Brasil não aceitará a privatização do PIX, descrito como uma infraestrutura pública e gratuita de pagamentos.
Desigualdade e eleições no Brasil
Lula associou o desenvolvimento à distribuição de renda, à geração de empregos, à valorização dos salários e à ampliação da proteção social. Defendeu investimentos em educação e saúde gratuitas e de qualidade, além do fim da escala 6×1, com dois dias livres por semana para os trabalhadores.
O discurso terminou com uma mensagem sobre as eleições brasileiras. Lula afirmou que milhões de brasileiras e brasileiros irão às urnas no dia quatro de outubro para escolher presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo. Segundo ele, o pleito será transparente e competitivo, mas enfrentará redes de desinformação e interesses estrangeiros contrários ao país.
Ao defender o sistema eleitoral e a soberania nacional, o presidente declarou: “A democracia brasileira pertence aos brasileiros.” Também afirmou que a ONU precisa recuperar a vontade política para voltar a ser, em suas palavras, o templo da paz.


