Os discursos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na abertura da Assembleia Geral da ONU expuseram visões opostas sobre a ordem global. Enquanto o presidente brasileiro defendeu o multilateralismo como caminho para enfrentar desafios comuns, o presidente dos Estados Unidos priorizou os interesses de seu país e sua posição no mundo.
A avaliação é de Sérgio Costa, professor titular de sociologia da Universidade Livre de Berlim. Para ele, Lula demonstrou uma postura de estadista ao relacionar a cooperação internacional a temas como saúde, clima, meio ambiente e prevenção de guerras.
Costa afirmou que, sem mecanismos multilaterais, podem faltar vacinas e doenças erradicadas podem voltar. Também destacou que as agendas climática e ambiental dependem da atuação conjunta entre países. Na avaliação do professor, a prevenção de conflitos ganhou importância diante de um cenário com recordes de guerras, inclusive disputas de expansão territorial que ele considerou características que se imaginava terem ficado no século 20.
Diferenças na política internacional
Trump, por outro lado, foi descrito por Costa como alguém que buscou colocar os Estados Unidos no centro do mundo. O professor associou essa postura a interesses imperialistas de uma potência que perdeu espaço e tenta recuperá-lo. Ele também mencionou um documento que orienta o plano de segurança estadunidense, divulgado no final do ano passado, cujo objetivo seria transformar a América Latina em uma zona de influência. Nesse cenário, o Brasil apareceria como obstáculo.
O presidente americano falou sobre aniquilar o Irã, fez ameaças diretas a Cuba e não apresentou autocrítica em relação à Venezuela. Também admitiu que o interesse dos Estados Unidos no país era o petróleo, segundo a avaliação apresentada por Costa.
Para o professor, a estratégia americana depende de setores de países latino-americanos dispostos a entregar riqueza e soberania nacional aos Estados Unidos. Uma possibilidade de mudança, segundo ele, seria uma derrota de Trump nas eleições de meio de mandato, o que abriria espaço para o fortalecimento de uma ordem multipolar.
Costa defendeu que o multilateralismo ainda pode ser reconstruído a partir das organizações internacionais existentes, embora estejam debilitadas e não tenham desaparecido.


