Uma antologia publicada em Paris em 1963 apresentou Machado de Assis como um precursor da literatura negra moderna. A interpretação aparece na obra Anthologie de la littérature négro-africaine: Romanciers et conteurs, escrita pelo martinicano Léonard Sainville e publicada pela Présence Africaine.
O livro reunia escritores negros da África, do Caribe e das Américas em uma mesma trajetória intelectual. Nesse panorama, Machado não aparece apenas como parte de uma tradição já estabelecida. Sainville o posiciona anteriormente a ela, como alguém que teria alcançado uma literatura autônoma no século 19.
A passagem da imitação à autonomia
A formulação surge com clareza na análise de René Maran, autor de Batouala e primeiro escritor negro a receber o Prix Goncourt, em 1921. Sainville afirma que Maran se afastou do pastiche “assim como Machado de Assis, cerca de trinta anos antes”. A comparação está registrada na página 419 da antologia.
Para Sainville, essa passagem representava a possibilidade de uma literatura negra autêntica: os escritores poderiam dialogar com modelos europeus sem permanecer submetidos a eles. Machado teria realizado esse movimento antes da afirmação coletiva da literatura negra francófona no século 20.
No início da obra, o autor descreve o surgimento de uma produção africana, negro-americana, antilhana e malgaxe que rejeitava a “pálida imitação” da cultura europeia. Esse processo estaria relacionado a uma consciência étnica formada em sociedades marcadas pela opressão, pelo racismo e pela discriminação.
Ao tratar do período anterior, Sainville abre uma exceção: “As exceções confirmam a regra. Houve apenas um Machado de Assis”. A frase indica que, embora a literatura negra autônoma só se consolidasse coletivamente no século 20, Machado já teria alcançado individualmente esse resultado no século 19.
Uma leitura ligada à intelectualidade negra
A interpretação ganha peso pelo ambiente intelectual ao qual Sainville estava ligado. A Présence Africaine havia organizado, em setembro de 1956, o Primeiro Congresso Internacional de Escritores e Artistas Negros, na Sorbonne. O encontro reuniu Aimé Césaire, Frantz Fanon, Léopold Sédar Senghor, Richard Wright, Cheikh Anta Diop e Édouard Glissant.
Nascido na Martinica em 1910, Sainville esteve próximo do ambiente parisiense dos anos 1930 associado ao surgimento da Négritude e ao círculo de L’Étudiant noir. Também se tornou um intelectual próximo à Présence Africaine, com uma obra dedicada à experiência negra nas Antilhas francesas.
A antologia não demonstra que Machado tenha influenciado diretamente a Négritude ou participado das discussões daquele congresso. O que o documento registra é outra relação: ao organizar historicamente a literatura negra, Sainville encontrou Machado antes de René Maran, da Négritude e da Présence Africaine.
Assim, Machado é apresentado não como fundador de um movimento, mas como uma referência anterior, cuja obra teria transformado influências europeias em uma voz literária própria. Para Sainville, essa conquista, realizada no Brasil do século 19, só se tornaria coletiva entre escritores negros no século 20.



