Roberto Schwarz completa 88 anos com o relançamento de seu primeiro livro de ensaios, A Sereia e o Desconfiado, publicado originalmente em 1965. A ocasião permite retomar uma obra crítica que examinou a literatura brasileira a partir das relações entre escravismo, clientelismo e ideário liberal-burguês, formando uma interpretação própria da sociedade e de suas expressões culturais.
Mais do que um conjunto de análises isoladas, os livros de Schwarz compõem uma trajetória articulada. Seus ensaios exigem do leitor atenção para argumentos complexos, aproximações entre áreas do conhecimento e conclusões que frequentemente entram em conflito com o senso comum. A prosa combina precisão, humor e autoconsciência sobre os próprios métodos, enquanto adapta a forma do texto à complexidade estética e política de cada objeto.
A formação de uma dicção crítica
A prosa de A Sereia e o Desconfiado é mais emaranhada e se apoia em análises minuciosas, associando a leitura detalhada dos textos à avaliação de suas posições ideológicas. Esse procedimento reaparece nos capítulos sobre os primeiros romances de Machado de Assis em Ao Vencedor as Batatas, de 1977, mas a dicção ensaística de Schwarz se torna mais definida em Cultura e Política, 1964-69, de 1970, reunido em O Pai de Família, de 1978.
Escrito durante o exílio francês, o estudo sobre a cultura dos primeiros anos da ditadura e o aumento da repressão a partir de 1968 combina a análise da produção artística ao comentário político. O resultado não é apenas um panorama, mas um diagnóstico de época construído a partir da experiência de quem acompanhou os conflitos daquele período.
Na década de 1980, os estudos que formariam Um Mestre na Periferia do Capitalismo, publicado em 1990, consolidaram uma escrita mais fluida, ágil e rigorosa. A análise da obra madura de Machado de Assis ocupa posição central nesse percurso, especialmente por mostrar como a forma literária pode incorporar a estrutura das relações sociais.
A matéria brasileira
O ensaio As Ideias Fora do Lugar, de 1972, introduziu Ao Vencedor as Batatas e lançou as bases do que Schwarz chamaria mais tarde de matéria brasileira. O conceito diz respeito ao sistema de relações sociais produzido pela história do país e do mundo, além dos pontos de vista inscritos nessas relações. Elas aparecem na linguagem, nos temas, nas tradições culturais e nas situações elaboradas pelos escritores.
Para Schwarz, a sociedade brasileira se estruturou por meio de um amálgama entre práticas senhoriais e atitudes liberais-burguesas. Essa combinação vinculava o escravismo e o clientelismo a ideologias modernas, em uma ordem marcada pela divisão entre proprietários, dependentes e escravizados.
A partir daí, o crítico procurou explicar por que ideias artísticas, políticas e científicas importadas pareciam inadequadas quando transplantadas para a realidade brasileira. O problema, em sua formulação, não estava simplesmente na origem estrangeira dessas ideias, cuja circulação seria inevitável, mas na estrutura social desigual que as recebia e lhes dava um funcionamento específico.
Em Nacional por Subtração, de 1986, Schwarz retomou esse argumento para mostrar que a sensação de inautenticidade cultural se relacionava à segregação da maioria da população e à reprodução das desigualdades internas. A sociedade escravista regida pelo favor não era exterior à modernidade: suas contradições também resultavam da inserção do país na ordem mundial do capitalismo.
O romance e os impasses locais
Em Ao Vencedor as Batatas, a discussão histórica serve à análise da adaptação de uma forma literária moderna, o romance, à realidade brasileira. Antes de tratar de Machado, Schwarz examina Senhora, de José de Alencar, e identifica como o romance urbano brasileiro passou a lidar com problemas que não encontravam soluções prontas na teoria literária europeia.
A transposição da forma romântico-realista para o ambiente local produziu, na leitura de Schwarz, uma obra dividida. O enredo principal não se apoiava plenamente nas relações sociais efetivas apresentadas nas margens da narrativa. Essa inadequação, porém, não era apenas uma falha: revelava o campo de problemas que a literatura brasileira precisava transformar em forma.
Os primeiros romances de Machado de Assis evitaram tratar diretamente dos grandes temas modernos do individualismo burguês e se concentraram nas relações entre proprietários e dependentes. Embora ainda presos a convenções românticas e moralizantes, esses livros examinaram progressivamente as relações de favor e identificaram possibilidades formais contidas na matéria local.
A solução mais abrangente viria com Memórias Póstumas de Brás Cubas, analisado em Um Mestre na Periferia do Capitalismo. A volubilidade do narrador permite introduzir referências à civilização moderna subordinadas ao arbítrio do defunto-autor. Para Schwarz, esse procedimento resolve impasses da tradição brasileira do romance e produz uma crítica à estrutura de dominação da sociedade brasileira e à ordem capitalista-burguesa.
Um programa para a crítica literária
O trabalho de Schwarz não se limita a Machado. Em estudos sobre Minha Vida de Menina, de Helena Morley, ele compara a obra a Dom Casmurro a partir do universo social que organiza as duas formas de prosa. A matéria brasileira pode, assim, estruturar tanto uma obra de grande elaboração artística quanto o diário de uma adolescente.
Essa perspectiva também aparece em análises de Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Glauber Rocha, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Schwarz propôs investigar como diferentes escritores formalizaram problemas comuns, produzindo soluções artísticas particulares e relacionadas ao dinamismo do mundo contemporâneo.
Outros ensaios examinam obras de Francisco Alvim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Paulo Lins, Sergio Bianchi e Zulmira Ribeiro Tavares. Em cada caso, a literatura, a música ou o cinema são relacionados às posições sociais e políticas inscritas nas formas artísticas.
Nos últimos anos, os estudos literários ampliaram seu foco para questões como gênero e raça, além de temas associados às mudanças das pautas políticas. Em discurso ao receber o título de professor emérito da Unicamp, em 2022, Schwarz criticou abordagens que, segundo ele, tratavam a ficção de maneira documental e indiferente à especificação estética. Também defendeu uma crítica independente, voltada às obras e capaz de reconhecer na literatura uma forma própria de pensar e investigar o mundo.
Retomar Roberto Schwarz, nesse sentido, não significa apenas repetir suas interpretações. Sua obra oferece um conjunto de problemas sobre a relação entre forma literária, estrutura social e história mundial, além de sugerir caminhos para investigar como escritores brasileiros transformaram essa matéria em soluções artísticas diferentes.


