Zélia Duncan chega ao 21º disco da carreira sem repetir fórmulas. Em Agudo Grave, lançado em 2026, a cantora transforma sua busca contínua por novas possibilidades em um trabalho construído com parceiros de diferentes momentos de sua trajetória. O álbum também celebra 45 anos de carreira e tem produção e arranjos de Maria Beraldo.
A faixa que dá nome ao disco abre o repertório e foi composta por Zélia em parceria com Lucina, que a acompanha desde o primeiro trabalho. O álbum reúne ainda colaborações com Alberto Continentino, Lenine, Ná Ozzetti, Zeca Baleiro, Pedro Luís e Juliano Holanda. A presença desses artistas reforça o caráter coletivo de uma obra assinada por uma cantora com trajetória solo consolidada.
A disposição de Zélia para mudar de direção acompanha sua carreira desde o sucesso de Catedral, em 1994. Quando lançou Intimidade, em 1996, ela foi questionada sobre a possibilidade de o novo disco trazer algo semelhante ao hit. A resposta foi direta: “não”. Desde então, a cantora não voltou a produzir uma música igual àquela, mantendo o interesse por caminhos diferentes sem se afastar do público.
O encontro com Maria Beraldo
A aproximação entre Zélia e Maria Beraldo começou depois de uma apresentação das duas no mesmo palco, em uma Virada Cultural, em São Paulo. Beraldo contou que havia assistido sete vezes ao espetáculo ToTatiando, no qual Zélia cantava e representava a obra de Luiz Tatit, com direção de Regina Braga. A conversa levou a um convite para que fizessem algo juntas.
O primeiro resultado veio quando Beraldo chamou Zélia para participar de Matagal, faixa do disco Colinho, lançado em 2024. A parceria se aprofundou e chegou ao novo álbum. Beraldo, produtora, cantora, instrumentista e clarinetista da banda Quartabê, conduziu a produção e os arranjos de Agudo Grave.
O vínculo entre as duas aparece na atenção dada à palavra, no minimalismo associado a Tatit e em referências como os violões de aço, o folk e a obra de Itamar Assumpção, Joni Mitchell e k.d. lang. Também há uma dimensão de representatividade lésbica, apontada como parte dos caminhos abertos por Zélia para artistas que vieram depois.
A palavra além das canções
A relação de Zélia com a escrita atravessa sua atuação artística. Leitora desde a adolescência, quando convivia com as estantes repletas de livros na casa da família, ela também passou a registrar histórias, momentos e percursos. Em uma conversa na A Feira do Livro deste ano, em São Paulo, falou sobre o uso da palavra em suas diferentes atividades.
O encontro ocorreu depois do lançamento de Benditas Coisas que Eu Não Sei, publicado pela Editora Agir em 2022. O livro se esgotou em pouco tempo. Ao comentar seu processo criativo, Zélia resumiu a importância da poesia: “Sem poesia não dá”.
Nascida em Niterói (RJ), a artista tem 61 anos. Além da música e da literatura, assina há oito anos o roteiro do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira, trabalho que acompanha a trajetória dos artistas homenageados. Em cada projeto, mantém a disposição de sair da zona de conforto e de tratar a criação como um campo aberto.


