A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no Nordeste, apesar do segundo lugar obtido por ele no primeiro turno, voltou a ser acompanhada por manifestações de xenofobia contra eleitores da região nas redes sociais. O episódio ocorreu depois de o PT também conquistar governos estaduais, com a reeleição de Jerônimo Rodrigues, na Bahia; Rafael Fonteles, no Piauí; e Elmano de Freitas, no Ceará.
A pesquisadora e socióloga Marina Macedo Rego avalia que a reação da extrema direita faz parte de um fenômeno nacional, embora o Nordeste tenha se tornado um alvo recorrente. Para ela, os estados da região representam, na última década, uma salvaguarda de aspectos democráticos básicos no país.
Uma associação construída ao longo do tempo
A hostilidade contra o eleitor nordestino, segundo Rego, não começou com a atual predominância do PT na região. Ela afirma que ataques semelhantes ocorrem desde as primeiras eleições após a redemocratização, quando o partido ainda não era majoritário no Nordeste. A expansão da internet e das redes sociais, porém, ampliou a circulação dessa narrativa discriminatória.
“Esse preconceito se reverbera depois de cada eleição, o que aumentou muito depois da expansão da internet, das redes sociais”, afirma a pesquisadora. Ela observa que o voto no PT acabou sendo associado de forma recorrente ao Nordeste.
A análise de Rego sobre a cobertura de dois jornais paulistas entre 1989 e 2022 identificou que, em metade das vezes, a menção ao Nordeste tinha associação negativa. Em uma em cada cinco ocorrências, havia um estereótipo negativo ou um ataque direto, seja por uma linha editorial, seja pelo registro de manifestações preconceituosas presentes na sociedade.
Quase 70% das citações do Nordeste, de acordo com a pesquisadora, aparecem vinculadas ao PT. Na avaliação dela, essa relação permite estigmatizar simultaneamente a região e o partido, restringindo a ideia de progressismo a um único espaço do país e reforçando fronteiras políticas.
Disputa eleitoral não se limita ao Nordeste
Rego também contesta a noção de que regiões ou estados sejam naturalmente de direita ou de esquerda. Para ela, essas preferências são construções históricas, e todos os votos e estados permanecem em disputa.
A identificação majoritária do Nordeste com o PT desde 2006 é relacionada, por ela, aos avanços históricos atribuídos ao partido na região. A pesquisadora destaca ainda que parte da juventude nordestina não era adulta antes de 2003 e, portanto, não guarda a mesma lembrança das mudanças daquele período.
Ela também ressalta que a relação entre esquerda e Nordeste não é exclusiva da região. O MST foi fundado no Paraná, o Rio Grande do Sul já foi um epicentro de progressismo, e o PT teve origem com uma juventude paulista ligada ao movimento operário que contava com bases nordestinas.


