GENEBRA — O Palexpo, centro de conferências de Genebra, recebeu no domingo milhares de brasileiros que vivem na Suíça e foram votar no primeiro turno. Em uma cidade associada à negociação entre diferenças, grupos com posições políticas opostas compartilharam filas, corredores e o mesmo processo eleitoral sem que a divergência se transformasse em conflito.
A votação ocorreu em um espaço situado em uma cidade que abriga a Organização das Nações Unidas (ONU) europeia, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização Mundial das Saúde (OMS) e dezenas de organismos multilaterais. Nesse cenário, o local de votação funcionou por algumas horas como uma representação reduzida do Brasil, reunindo eleitores de diferentes profissões, origens e visões políticas.
A dimensão do eleitorado no exterior
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 918.876 brasileiros estavam aptos a votar fora do país em 2026, alta de 31,82% em relação a 2022. Na Europa, cerca de 413 mil eleitores estavam distribuídos por 43 cidades de 35 países.
A Suíça tinha cerca de 27 mil eleitores aptos, concentrados em dois centros eleitorais: Genebra e Zurique. O primeiro atende a região francófona, de Genebra a Neuchâtel, além do Jura e do Valais, e reunia aproximadamente 12 mil eleitores. Zurique ficou responsável pelas regiões germanófona e italiana, o que fazia com que brasileiros do Ticino precisassem viajar de trem até a cidade para votar.
No Palexpo, havia empregadas domésticas, médicos, garçons, enfermeiros, pedreiros, pesquisadores do CERN e das universidades, motoristas, funcionários das Nações Unidas, cozinheiros, cabeleireiras, dentistas, comerciários e auxiliares de limpeza. Muitos chegaram depois de sair de casa antes do amanhecer e viajar de trem a partir de Neuchâtel, La Chaux-de-Fonds, Sion ou Friburgo. Famílias inteiras também participaram, algumas com crianças no colo.
Símbolos e razões diferentes
A diversidade política apareceu nos símbolos escolhidos pelos eleitores. Um grupo montou um espaço com imagens de Nossa Senhora Aparecida, um retrato de Frida Kahlo, uma estrela vermelha e uma bandeja de brigadeiros. Outros usaram a camisa 10 da seleção brasileira como demonstração de patriotismo. Também houve quem preferisse não exibir qualquer símbolo, uma escolha que igualmente carregava significado político.
As justificativas para votar variaram. Alguns eleitores falaram em medo do retrocesso; outros mencionaram a democracia, a esperança e o patriotismo. Houve ainda referências à fé, às conversas em igrejas e aos grupos de comunicação. Parte dos votantes afirmou querer mudar a situação do país, evitar uma catástrofe ou ampliar as oportunidades educacionais para filhos de trabalhadores.
A palavra democracia apareceu em quase todas as respostas, mas não tinha o mesmo significado para todos. A presença simultânea de posições distintas, sem confrontos como os lembrados de 2022, foi uma das características do dia.
Preparação e resultado
No Consulado-Geral do Brasil em Genebra, a organização começou ainda em 2025. O planejamento incluiu a escolha do local, campanhas de regularização eleitoral, treinamento promovido pela Justiça Eleitoral, testes das urnas e definição da logística.
Ao todo, 73 pessoas participaram diretamente da operação. O grupo reuniu funcionários do consulado e de outras representações diplomáticas da cidade, voluntários, mesários, coordenadores e equipes de apoio. A organização, a velocidade do atendimento e o andamento das filas foram elogiados pela maioria dos eleitores consultados, inclusive nos períodos de maior movimento.
Depois do encerramento da votação, cabines, urnas e faixas foram retiradas. Os fiscais dos partidos receberam os resultados de cada urna e fizeram a conferência dos votos. O acompanhamento da apuração foi feito por um grupo pequeno que permaneceu no local até o fim.
Em Genebra, Lula recebeu 2.496 votos, enquanto Flávio teve 2.226. Um segundo turno está marcado para 25 de outubro, quando os brasileiros voltarão às urnas em Genebra e em centenas de cidades pelo mundo.


