Dois consumidores podem fazer exatamente as mesmas escolhas no mercado e, ainda assim, atribuir sentidos opostos ao que fizeram. Um compra cerveja, arroz e um biscoito não planejado acreditando que seu interesse individual contribui para o funcionamento da economia. O outro leva os mesmos produtos, mas enxerga no desejo de comprar uma manifestação da Vontade descrita por Schopenhauer.
A diferença entre eles não aparece no comportamento. Os dois usam o mesmo cartão, pagam os mesmos preços e deixam o supermercado com a sensação de ter gastado mais do que pretendiam. Também respondem aos mesmos incentivos e fazem escolhas iguais. O contraste está no comentário interno que acompanha a ação.
O mercado como coordenação
O consumidor otimista se aproxima do homo economicus associado à leitura de Adam Smith. Para ele, o indivíduo persegue o próprio interesse, mas suas ações podem produzir efeitos mais amplos sem que isso tenha sido planejado. A compra movimenta o fornecedor, o trabalho do entregador, a circulação de impostos e a atividade econômica.
Essa coordenação é representada pela mão invisível. Ela não é um agente no sentido estrito, mas recebe verbos de agência: conduz, guia e dirige. O indivíduo escolhe e calcula; a mão invisível representa o resultado que surge além de sua intenção. A ação pessoal é real, porém o efeito produzido não pertence inteiramente a quem agiu.
O consumidor otimista, assim, permanece convencido de que suas escolhas são relevantes e de que o funcionamento do mercado dá a elas uma consequência favorável. Sua confiança não depende de conhecer exatamente o que quer, mas de acreditar que o ato de querer é suficiente para integrar-se à dinâmica do sistema.
O desejo como manifestação da Vontade
O consumidor pessimista não nega que o mercado funcione. Ele reconhece os preços como sinais e entende que a oferta responde à demanda. Sua discordância está na interpretação do mecanismo. Em vez de encontrar harmonia, vê a Vontade schopenhaueriana manifestando-se nas prateleiras, nos produtos e no impulso de consumir.
Cada item promete preencher alguma falta, mas não elimina o desejo que o motivou. A cerveja não impede que a sede volte, e o biscoito se torna o símbolo de uma satisfação que não resolve o vazio. A compra continua acontecendo, mas sem a crença de que o consumo possa solucionar alguma coisa.
Para Schopenhauer, o indivíduo pensa que age, embora seja a Vontade que se manifeste por meio dele. A Vontade não conhece, delibera ou escolhe como um sujeito consciente. Ela quer sem finalidade determinada. Por isso, a ordem do mercado não aparece como coordenação, mas como possível subproduto do conflito entre desejos.
Uma divergência que não é empírica
As duas interpretações não podem ser distinguidas pela observação do comportamento. Os consumidores escolhem os mesmos produtos, pagam a mesma conta e reagem aos mesmos estímulos. O fenômeno observado é neutro: nada no mercado, por si só, decide se sua regularidade deve ser compreendida como harmonia ou como expressão de uma força cega.
A divergência, portanto, é metafísica. Smith e Schopenhauer não oferecem duas descrições empíricas incompatíveis do mesmo ato. Eles fazem leituras diferentes sobre o significado do resultado. A mão invisível é uma interpretação otimista da coordenação; a Vontade é uma interpretação pessimista do desejo e de seus efeitos.
O paralelo entre os dois sistemas aparece na agência. Em ambos, a intenção individual é insuficiente para explicar aquilo que resulta da ação. Em Smith, o indivíduo age de fato, mas o resultado social ultrapassa seu propósito. Em Schopenhauer, a própria escolha individual é vista como manifestação de algo que a consciência não controla plenamente.
A mão invisível parece um sujeito sem sujeito: conduz e beneficia sem que exista alguém efetivamente no comando. A Vontade parece uma força sem finalidade: insiste e produz efeitos sem conhecer um objetivo. Uma conserva a aparência da intenção; a outra, a aparência do impulso. Nos dois casos, a ordem ou o resultado não têm uma origem plenamente explicada na ação consciente do indivíduo.
O homo economicus entre escolha e dissolução
O homo economicus ocupa uma posição central nessa comparação porque parece ser o agente por excelência. A economia parte da escolha, do cálculo e da busca pelo ganho. No entanto, tanto Smith quanto Schopenhauer deslocam a explicação decisiva para além desse agente.
Na leitura otimista, o indivíduo é autor de suas escolhas, mas não controla os efeitos que elas produzem. Na leitura pessimista, o indivíduo acredita escolher, embora seja o ponto em que a Vontade se torna consciente como desejo. Em um caso, a agência é real, mas parcial; no outro, é ilusória.
Por isso, o otimista e o pessimista continuam comprando, pagando e voltando à fila. A diferença não altera o mecanismo do mercado. Ela modifica a forma de habitar esse mecanismo. O primeiro encontra uma explicação mais leve, baseada na confiança de que o sistema funciona. O segundo preserva uma compreensão mais pesada, porque sabe que o funcionamento não elimina o vazio que acompanha o desejo.
A escolha entre essas narrativas não muda a conta nem faz a fila andar mais rápido. Muda, porém, o modo como cada pessoa interpreta o tempo passado dentro dela. Ambos compram o mesmo biscoito; apenas um acredita que a regularidade do sistema é uma forma de benefício, enquanto o outro vê nela a persistência de um querer que nunca se completa.
Roberto Kiel é engenheiro agrônomo e funcionário do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O texto é um artigo de opinião.


