A indefinição sobre a eleição presidencial brasileira se combina, na reta final da campanha, com uma turbulência internacional que pressiona juros, câmbio e ativos de risco. O petróleo Brent voltou a superar US$ 100 o barril, indicadores apontam uma economia americana mais forte que o esperado e aumentou a percepção de que a inflação pode exigir novas altas de juros pelo Federal Reserve.
Nesse ambiente, a remuneração dos títulos do Tesouro dos EUA retornou aos maiores níveis em duas décadas. O dólar se fortalece diante das demais moedas, inclusive o real, e amplia a cautela de investidores que acompanham o mercado brasileiro.
O que o CDS indica sobre o Brasil
Um dos indicadores observados é o Credit Default Swap (CDS) de cinco anos, instrumento usado internacionalmente como proteção contra calotes. O indicador não representa diretamente o risco soberano, mas mostra como o diferencial entre os juros americanos e brasileiros pode influenciar a avaliação de um país ou de uma empresa.
Depois de encerrar 2025 em torno de 140 pontos, o CDS Brasil de 5 anos tem oscilado entre 110 e 120 pontos e pode romper o suporte de 110. Isso confirmaria a menor cotação desde maio de 2024, quando o indicador era negociado a 99,48 pontos. O próximo piso seria 92,40 pontos, registrado em fevereiro de 2020.
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, afirma que o movimento de queda não significa, por si só, uma melhora na percepção internacional sobre o Brasil. “Não é risco soberano, mas medida quantitativa da diferença entre juros de títulos americanos de 5 anos e brasileiros de igual vencimento”, disse.
A lógica é que, se os juros americanos continuarem subindo enquanto a Selic cair, o diferencial entre os títulos diminui e o CDS também recua. A avaliação mais ampla do país, porém, considera o rating soberano, além de indicadores como juros, câmbio, inflação, situação social e impacto das medidas de execução orçamentária.
Agostini diz que os fundamentos brasileiros continuam ruins e que o próximo governo não conseguiria alterar rapidamente esse quadro. Entre investidores, há a percepção de que uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia abrir espaço para uma gestão fiscal mais equilibrada e para a redução do endividamento.
Ativos locais têm desempenho positivo, mas cenário é incerto
A proximidade do primeiro turno, marcado para domingo, 4 de outubro, mantém os investidores preparados para reagir rapidamente. Ordens de compra e venda no mercado local poderão ser testadas logo após o resultado, em um momento ainda afetado pela inflação no exterior e no Brasil, por novas etapas do tarifaço de Donald Trump contra exportações, pelo petróleo e pelos juros americanos.
Apesar das pressões externas, alguns ativos domésticos apresentam desempenho favorável. O dólar, depois de uma breve desvalorização, alcançou R$ 5,00 em maio, mantém esse patamar e acumula queda próxima a 5% entre janeiro e 23 de setembro.
A Selic, que estava em 14% até duas semanas atrás, foi reduzida para 13,75% por decisão do Copom. Parte do mercado avalia que pode haver novo recuo em novembro, após a divulgação da ata do comitê. O bônus brasileiro de 10 anos, negociado em reais no exterior, acompanhou as taxas domésticas de prazos mais longos.
O Ibovespa registra alta em torno de 14% no ano e ainda opera em terreno positivo em setembro. Nos primeiros meses de 2026, o índice chegou perto de 200.000 pontos, apoiado pelo ingresso de capital estrangeiro.
As ações listadas na B3 atraíram R$ 69 bilhões entre janeiro e abril. Com a reação ao cenário externo, o saldo das aplicações estrangeiras caiu para R$ 13 bilhões até agosto. Nas últimas semanas, os investimentos foram retomados de maneira irregular e, até 22 de setembro, o saldo do ano estava em R$ 27,9 bilhões.
Agenda econômica amplia atenção
A expectativa de uma vitória de Flávio Bolsonaro, associada no mercado à possibilidade de uma política fiscal mais responsável, poderia favorecer uma valorização substancial do Ibovespa e a entrada de capital externo na B3. Ainda assim, fatores internacionais podem provocar ajustes nas posições locais independentemente do resultado da eleição.
Na última semana do mês, o BC divulgará dados sobre operações internacionais, crédito e política fiscal, enquanto o Tesouro apresentará informações sobre dívida pública e endividamento do governo geral. Também estão previstos dados do mercado de trabalho e índices setoriais de confiança do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas.
No exterior, os dados do mercado de trabalho dos EUA estarão entre os principais eventos do calendário. As informações mais relevantes estão previstas para sexta-feira, 2, acrescentando novos elementos à avaliação sobre os juros americanos e sobre o comportamento dos ativos brasileiros.



