O jornalista Bruno Lima Rocha Beaklini afirma que o Brasil atravessa o período anterior ao primeiro turno das eleições gerais de 2026 sob uma tentativa de influência direta dos Estados Unidos sobre o resultado do pleito e sobre as decisões do governo que assumirá em 1º de janeiro de 2027.
Na avaliação do autor, a possibilidade de o senador Flávio Bolsonaro convidar o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a participar de uma equipe binacional de transição representaria uma forma explícita de subordinação política. O episódio, segundo o artigo, teria sido incorporado à disputa eleitoral como parte das narrativas de campanha, em vez de provocar um debate amplo sobre soberania nacional.
Soberania e condições materiais
Beaklini sustenta que a soberania costuma mobilizar a sociedade de maneira mais ampla quando afeta diretamente a vida cotidiana. O Pix é apresentado como exemplo: uma ameaça ao sistema de pagamentos seria percebida como ameaça à sobrevivência de milhões de brasileiros. Já a exploração de terras raras e de outros minerais estratégicos, embora tratada pelo autor como uma questão central para o século 21, não teria produzido uma campanha política equivalente ao movimento O Petróleo é nosso.
Para o jornalista, a defesa da soberania não deveria permanecer restrita a símbolos ou a disputas culturais. Ela dependeria de liderança política, disposição para assumir custos e mobilização de maiorias em torno de objetivos definidos. O autor também vincula a soberania à melhoria das condições materiais de vida, com políticas públicas universais, transferência de renda e aumento real de salários sem inflação significativa.
Essa relação, afirma Beaklini, seria necessária para que a exploração de riquezas estratégicas resultasse em desenvolvimento social. Sem a destinação de parte da renda obtida para reduzir desigualdades e ampliar benefícios, o objetivo soberano perderia força concreta perante a população.
Referências internacionais
O artigo usa experiências da América Latina para discutir os riscos de uma mobilização sem preparação adequada. Na Venezuela, o autor menciona o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores em janeiro deste ano de 2026 e afirma que as manifestações em defesa da República Bolivariana não teriam sido acompanhadas por uma estrutura militar compatível com o desafio apresentado.
A Argentina de 1982 aparece como outro caso. Segundo a análise, a ditadura militar não teria se preparado para um conflito prolongado com o Reino Unido, apoiado pelos Estados Unidos. O autor descreve a guerra como um confronto convencional assimétrico e afirma que a expectativa de uma vitória rápida não correspondia ao curso do conflito.
O Irã é apresentado como referência para discutir a preservação de receitas provenientes de petróleo, gás e derivados, o uso desses recursos na industrialização e a associação entre soberania e condições materiais de vida. Beaklini também destaca, em sua análise, a existência de mecanismos institucionais destinados a impedir que mudanças de governo resultem na venda ou na hipoteca do país.
Propostas para a América Latina
Ao trazer essas ideias para a região, o jornalista defende a mobilização social em torno de metas diretas, a industrialização das riquezas primárias e a destinação de parte da renda nacional à redução da desigualdade. Entre os objetivos citados estão aumentos reais do salário mínimo e a garantia de benefícios como Bolsa Família e BPC.
A conclusão do artigo é que soberania nacional e soberania popular deveriam ser tratadas como conceitos inseparáveis. Para o autor, isso exigiria reconhecer a diversidade social do país, superar a herança neocolonial e rejeitar tanto a dependência de interesses estrangeiros quanto a concentração da economia na exploração financeira e na exportação de commodities primárias.
Bruno Lima Rocha Beaklini é apresentado como jornalista, doutor em ciência política, pós-doutor em economia política internacional e professor de relações internacionais. O texto é identificado como artigo de opinião, e suas avaliações não são apresentadas como consenso institucional.


