BRASÍLIA — A mobilidade urbana se tornou um dos principais temas da disputa pelo Governo do Distrito Federal. As campanhas discutem tarifa zero, melhorias no transporte público e obras para reduzir congestionamentos, enquanto moradores enfrentam superlotação, longos períodos de espera e trajetos mais demorados para chegar ao centro da capital.
Pesquisas sobre o transporte público no Distrito Federal apontam a superlotação e o tempo de espera nos pontos de ônibus como os principais problemas relatados pela população. A adoção da tarifa zero aos domingos foi acompanhada por um aumento de 70% nas viagens de transporte público.
As propostas apresentadas pela sociedade civil no PDTU/PMUS e nas etapas locais da Conferência Distrital das Cidades incluem a ampliação de rotas e horários para regiões afastadas do Plano Piloto, a melhoria da infraestrutura dos pontos de ônibus e uma integração maior entre bairros, regiões administrativas e municípios do Entorno. Também aparecem demandas por calçadas mais adequadas e iluminação pública em áreas de circulação de pedestres. A mobilidade de quem caminha ou pedala, porém, recebe menos destaque nos planos de governo.
Subsídios e contratos
Desde 2022, o Governo do Distrito Federal recorre à Câmara Legislativa para financiar o sistema de transporte. Naquele ano, os deputados distritais aprovaram crédito suplementar de R$ 504,9 milhões para as operadoras. Em 2023, foram autorizados outros R$ 142,9 milhões para o subsídio, em uma votação aprovada por 16 votos a 5 e marcada por críticas à ausência de contrapartidas.
No mesmo período, o governo prorrogou por mais dez anos, sem nova licitação, contratos de concessão firmados entre 2011 e 2013. Dados do Portal da Transparência indicam que os repasses alcançaram R$1,923 bilhão em 2024, acima do valor de 2022 e o dobro de 2021. Para 2026, o custo previsto do sistema é de R$ 2,2 bilhões.
Em 2021, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios foi à Justiça questionando o pagamento da complementação tarifária por portarias da Secretaria de Mobilidade, sem uma lei específica. A remuneração baseada no número de passageiros e nas viagens informadas pelas próprias empresas também é apontada como um fator de fragilidade na fiscalização.
Metrô e trabalhadores
O metrô transporta, em média, 160 mil passageiros nos dias úteis e conecta Ceilândia, Taguatinga e Samambaia. Em 2026, o serviço enfrentou interrupções, redução da frota e falta de peças. O sistema é criticado pela insuficiência de linhas, horários e veículos, além da ausência de expansão capaz de integrar outras áreas do território.
Em 2021, o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) apresentou propostas de privatização do metrô. A ideia é rejeitada por 60% do eleitorado. Paralelamente, trabalhadores dos setores rodoviário e metroviário mobilizaram-se por reajustes salariais, concursos públicos e mudanças nas jornadas, chegando a aprovar indicativo de greve. Também houve paralisações de menor escala envolvendo a Viação Marechal e empresas que atendem municípios do nordeste do Entorno.
João Lucas Machado Campos, Marcela Antonieta Souza da Silva e Paíque Duques Santarém relacionam a deterioração do serviço à falta de participação direta de usuários e trabalhadores nas decisões sobre a mobilidade. A análise defende sistemas que não sejam estruturados prioritariamente pelo lucro, pela cobrança direta ao usuário ou pela quantidade de passageiros transportados, e questiona quais mecanismos de democracia direta poderiam definir outras prioridades para o transporte do Distrito Federal.


