Simulações computacionais sugerem que Vênus poderia ter formado uma lua e perdido esse satélite por causa da própria dinâmica gravitacional. A hipótese, apresentada por pesquisadores dos Estados Unidos e da França, não comprova que uma lua tenha existido, mas indica um possível caminho para explicar por que o planeta não possui um satélite natural.
O estudo foi publicado na última segunda-feira (14) na revista científica The Astrophysical Journal. Os modelos apontam que a rotação extremamente lenta de Vênus faria uma lua hipotética se aproximar gradualmente do planeta, em vez de se afastar, até colidir com a superfície.
Uma dinâmica diferente da observada na Terra
A rotação é um dos elementos que distinguem a evolução orbital de uma lua ao redor da Terra e de Vênus. A Terra completa uma volta em torno do próprio eixo em aproximadamente 24 horas. Vênus leva cerca de 243 dias terrestres para fazer o mesmo movimento.
Na Terra, a interação gravitacional provoca o afastamento gradual da Lua, em uma taxa de cerca de quatro centímetros por ano. “Sabemos que a Lua está se afastando lentamente da Terra, a uma taxa de cerca de quatro centímetros por ano”, explicou o astrofísico Stephen Kane, autor do artigo, em comunicado.
Em Vênus, segundo os pesquisadores, a baixa velocidade de rotação inverteria esse comportamento. Uma lua perderia altitude orbital pouco a pouco e seguiria uma trajetória em direção à superfície. A combinação entre a gravidade do planeta e sua rotação poderia, portanto, levar à destruição do satélite sem a necessidade de um segundo impacto.
Testes com diferentes luas hipotéticas
A equipe criou modelos computacionais baseados nas leis físicas que descrevem a interação gravitacional entre corpos celestes. Primeiro, os cálculos foram usados para reproduzir a evolução conhecida do sistema Terra-Lua. Essa etapa serviu para verificar se o modelo representava adequadamente uma dinâmica já estudada.
Depois, os pesquisadores modificaram a velocidade de rotação de Vênus e o tamanho dos satélites simulados. Foram avaliadas luas com massas entre metade e dez vezes a massa da Lua terrestre. Os resultados mantiveram, em geral, a mesma direção: os satélites perderiam altitude e acabariam colidindo com o planeta.
O que ainda permanece sem resposta
O estudo não determina se Vênus realmente teve uma lua. A formação desse satélite continua sem confirmação. Antes dessa hipótese, outras possibilidades já haviam sido consideradas, como a destruição de uma lua por um impacto posterior ou a ausência de qualquer evento capaz de formar um satélite.
A nova proposta acrescenta uma alternativa: uma lua poderia ter surgido e sido incorporada ao próprio planeta pela evolução gravitacional do sistema. Encontrar evidências diretas seria difícil porque cerca de 80% da superfície de Vênus tem idade semelhante. Essa característica indica que uma grande remodelação ocorreu há aproximadamente 1 bilhão de anos e pode ter apagado registros mais antigos da história geológica do planeta.
Uma forma de investigar essa possibilidade seria estudar a estrutura interna de Vênus. Na Terra, análises sísmicas identificaram estruturas profundas que são consideradas possíveis vestígios da colisão associada à formação da Lua. Uma investigação semelhante em Vênus poderia procurar sinais de que uma antiga lua foi incorporada ao planeta.
Impactos sobre a evolução do planeta
Uma colisão entre Vênus e uma lua teria efeitos além da destruição do satélite. O choque poderia transferir energia e momento angular ao planeta, alterando sua rotação, sua geologia e seu clima. A mudança também poderia ajudar a investigar se Vênus já teve oceanos ou condições mais favoráveis à vida do que as observadas atualmente.
A hipótese interessa ainda aos estudos de exoplanetas. A presença de uma lua é um dos fatores considerados na análise das condições que podem favorecer a vida, embora os pesquisadores não saibam se um satélite grande é indispensável para a habitabilidade. “Acho que ter uma lua traz benefícios, mas ela não é essencial para a habitabilidade”, avaliou Kane.
O trabalho amplia as possibilidades para analisar sistemas planetários semelhantes ao Sistema Solar: um planeta pode formar uma lua e, ainda assim, não conseguir mantê-la em órbita por longos períodos.



