A América Latina pode aproveitar uma combinação pouco comum de condições externas favoráveis, mas ainda não consegue convertê-la em crescimento mais forte. Essa é a avaliação de um estudo do Citi coordenado por Ernesto Revilla, economista-chefe do banco para a região, que identifica oportunidades ligadas ao comércio, às commodities e à reorganização das cadeias globais de produção.
Revilla afirma que o principal obstáculo está dentro da própria região: a falta de investimento. Sem ampliar a capacidade produtiva, modernizar a tecnologia e criar empregos de qualidade, os países latino-americanos não conseguiriam transformar o cenário internacional em expansão econômica duradoura.
Comércio e cadeias produtivas
O diagnóstico considera que os preços elevados das commodities continuam sustentando receitas externas importantes, enquanto um dólar mais fraco favorece os exportadores. A força da economia dos Estados Unidos também mantém elevada a demanda por bens e serviços latino-americanos.
México, Brasil e Chile aumentaram sua participação no comércio bilateral com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a região também ampliou sua presença comercial com a China. Para Revilla, essa atuação simultânea nos dois mercados diferencia a América Latina no processo de reorganização econômica mundial.
A separação crescente entre as cadeias produtivas americanas e chinesas pode abrir espaço para investimentos industriais e logísticos. O México aparece como beneficiário do nearshoring, enquanto países produtores de matérias-primas, como o Brasil, podem aproveitar os preços elevados. América Central e Caribe, por sua vez, são favorecidos pela proximidade econômica com os Estados Unidos.
O nearshoring, definido no estudo como a aproximação da cadeia produtiva do país de destino das exportações, depende de regras mais claras e de maior previsibilidade institucional. A relação com a China continua relevante para Brasil, Peru e Chile, enquanto a aproximação com os Estados Unidos ganhou importância estratégica.
O problema do investimento e das regras
O estudo aponta que recursos naturais, localização geopolítica e condições internacionais favoráveis não bastam para atrair capital. A incerteza política, a baixa segurança jurídica e a instabilidade dos marcos regulatórios reduzem a disposição de investidores internacionais, que observam a região com interesse, mas também com cautela.
Brasil, Chile e Peru são apresentados como países bem posicionados por seus recursos naturais e fundamentos macroeconômicos. Os países andinos aparecem em situação especialmente favorável, com fundamentos sólidos e governos mais voltados à atração de investimentos.
No caso brasileiro, Revilla destaca a dimensão da economia, a condução da política macroeconômica, o mercado de trabalho e o crédito como elementos que formam uma plataforma para uma nova etapa de integração econômica. O país também pode se beneficiar das commodities e de seu mercado interno.
O principal risco doméstico apontado para o Brasil é o quadro fiscal. A dificuldade de equilibrar as contas públicas reduz a previsibilidade necessária para investimentos de longo prazo. A dívida poderia atingir 88% do PIB em 2027 e se aproximar de 100%, o que, na avaliação do economista, deixaria a situação mais difícil.
A próxima administração, qualquer que seja o resultado eleitoral, teria de abrir espaço para reformas. Como nenhum vencedor teria maioria no Congresso, seria necessário negociar, embora exista um consenso básico sobre a importância de uma trajetória fiscal estável.
A Argentina não aparece entre os beneficiários da janela de oportunidade analisada pelo Citi. Apesar de avanços macroeconômicos nos últimos três anos, como superávits fiscais, inflação menor e mais reservas, o país enfrenta incerteza política em relação às eleições presidenciais de 2027. A possibilidade de reversão de reformas pela oposição é apontada como fonte de volatilidade.
Crescimento baixo e riscos
O estudo também alerta que a América Latina avançou pouco na aproximação com os níveis de renda das economias desenvolvidas. Em 1990, o Produto Interno Bruto per capita da região equivalia a 28% do registrado nos Estados Unidos. Em 2024, essa proporção era de 26,4%, enquanto a Ásia emergente obteve avanços significativos.
O crescimento regional permanece próximo a 2%, abaixo do potencial e do ritmo necessário para a convergência. A dificuldade política para aprovar reformas é tratada como um risco transversal. O Chile é citado como exemplo de como impasses no Congresso podem impedir o aproveitamento de uma conjuntura favorável.
Há ainda riscos externos. Uma nova alta dos juros globais poderia encarecer o financiamento e reduzir o interesse por mercados emergentes. O aumento do preço do petróleo também aparece como possível fator negativo. A região, porém, estaria mais preparada do que no passado, com fundamentos mais sólidos, moedas flexíveis e reservas internacionais maiores.
A violência, incluindo criminalidade comum, narcotráfico e crime organizado, é outro fator de preocupação. O estudo não apresenta uma resposta clara para o impacto desse problema sobre os investidores. A política dos Estados Unidos pode se tornar mais assertiva após as eleições de meio de mandato, com efeitos que dependeriam da dimensão e dos detalhes das medidas.
Para Revilla, a oportunidade existe, mas não está assegurada. A região terá de reduzir as incertezas e melhorar o ambiente para o capital para romper um ciclo de crescimento baixo que se prolonga há décadas. Caso contrário, a combinação favorável de fatores externos poderá desaparecer sem produzir uma expansão significativa da atividade econômica.



