A economia criativa reúne oportunidades de expansão para os países do Brics+, mas ainda enfrenta obstáculos para transformar conhecimento, propriedade intelectual e produção cultural em investimentos e exportações. O setor impulsiona a inovação, amplia a competitividade das cidades, contribui para o desenvolvimento sustentável e fortalece a promoção comercial, embora continue recebendo menos atenção de investidores do que áreas tradicionais, como comércio e construção.
O mercado mundial das indústrias criativas movimentou US$ 2,9 trilhões (R$ 15 trilhões) em 2024. A projeção é de que alcance mais de US$ 4,3 trilhões (R$ 22 trilhões) até 2033, com expansão média anual de 4,3%. O setor responde por cerca de 3,1% do PIB global, 3% do comércio internacional e mais de 6% dos empregos. A participação da economia criativa no PIB mundial pode chegar a 10% até 2030.
Diferentes modelos dentro do Brics+
A análise identifica três formas principais de desenvolvimento. China e Emirados Árabes Unidos seguem um modelo baseado em inovação tecnológica, apoiado por infraestrutura avançada e disponibilidade de capital. Rússia, Brasil e Indonésia adotam uma combinação de mecanismos de mercado, recursos humanos, demanda interna e desenvolvimento regional. Já África do Sul, Índia, Egito, Irã e Etiópia concentram parte relevante de seu potencial no patrimônio cultural e na identidade nacional.
A participação do setor no PIB varia entre os países. Na Indonésia, chega a 7,3%; na China, alcançou 4,6% em 2024; e na Rússia, 4,1% no mesmo período. Brasil e Emirados Árabes Unidos registram 3,6% e 3,5%, respectivamente. No Egito, estimativas baseadas em dados de 2024 indicam cerca de 3%, enquanto a economia criativa representou aproximadamente 3% do PIB da África do Sul em 2023.
Esses números exigem cautela, porque os países usam métodos diferentes para classificar e contabilizar as atividades criativas. A ausência de uma metodologia comum dificulta a comparação de indicadores como produção, emprego, exportações e valor agregado.
Em valores absolutos, a China lidera, com US$ 879 bilhões (R$ 4,5 trilhões), seguida por Indonésia, com US$ 105 bilhões (R$ 546 bilhões); Rússia, com US$ 87 bilhões (R$ 452 bilhões); e Brasil, com US$ 78 bilhões (R$ 405 bilhões). No emprego, a Índia reúne cerca de 50 milhões de trabalhadores em atividades criativas, a China aproximadamente 30 milhões e a Indonésia 27,4 milhões.
Concentração urbana e tecnológica
As cidades funcionam como pontos de concentração de talentos, educação, infraestrutura e capital. No ranking de atratividade inovadora das cidades globais de 2024, Xangai ficou em 7º lugar entre as cidades do Brics+, e Pequim, em 9º. Moscou ocupou a 15ª posição, São Paulo ficou em 22º, Mumbai em 36º e Dubai em 38º. Teerã avançou da 108ª para a 71ª posição.
A China combina esses centros urbanos com políticas de incentivo ao comércio cultural, à exportação de direitos autorais, ao cinema, à televisão, às artes visuais e ao design. No Índice Global de Inovação de 2025, o país ficou em 10º lugar e concentrou 24 dos 100 principais clusters de inovação do mundo. Os Emirados Árabes Unidos alcançaram a 30ª posição e estabeleceram a meta de elevar a participação da economia criativa no PIB para 5% até 2031.
A digitalização amplia esse movimento. Computação em nuvem, redes 5G, inteligência artificial, capacidade de processamento e plataformas digitais reduzem custos de produção e distribuição. Também permitem que produtos criativos alcancem mercados externos com menos limitações territoriais. No entanto, o acesso à internet varia de 99% nos Emirados Árabes Unidos a 38% na Etiópia, o que mantém uma desigualdade relevante entre os países.
Crédito e regras ainda limitam o setor
O financiamento é um dos principais gargalos. Empresas criativas muitas vezes não dispõem de imóveis ou equipamentos em quantidade suficiente para oferecer como garantia, embora tenham catálogos musicais, franquias de jogos, patentes, roteiros, marcas ou personagens capazes de gerar receitas futuras. O sistema financeiro tradicional, porém, costuma priorizar ativos materiais.
Entre os desafios apontados estão a distribuição desigual do apoio estatal, a falta de capital, o desequilíbrio entre produção e exportação, a desigualdade digital e a ausência de estatísticas compatíveis. Também pesam a burocracia na proteção de direitos autorais, a fragilidade da aplicação das regras em âmbito internacional e a falta de uma estratégia comum para o desenvolvimento da economia criativa no grupo.
Uma possível resposta seria criar instrumentos regionais de financiamento para empreendedores criativos, com participação dos países do Brics+. A integração também dependeria de regras compatíveis para propriedade intelectual, licenciamento, direitos digitais, operações transfronteiriças e coproduções. Não seria necessário adotar uma legislação única, mas assegurar previsibilidade para empresas, investidores e detentores de direitos.
Caminhos para um mercado integrado
A cadeia de valor proposta para o Brics+ começa na criação e passa pela proteção da propriedade intelectual, financiamento, produção, distribuição e monetização. Ela poderia ser aplicada a filmes, séries, jogos, animações, música e arte digital, com projetos conjuntos entre diferentes países.
A formação profissional aparece como parte estratégica desse processo. Alianças universitárias, programas conjuntos de mestrado e iniciativas de mobilidade acadêmica poderiam conectar educação, startups, propriedade intelectual e exportação. Plataformas de pagamento, marketing digital e distribuição também ampliariam a presença de pequenas e médias empresas no comércio entre os países.
Entre as possibilidades de cooperação estão clusters internacionais de cinema e vídeo entre Índia, Rússia e Egito; iniciativas de design e arquitetura envolvendo China, Emirados Árabes Unidos e Brasil; e projetos de arte digital e jogos com participação de Rússia, Indonésia e Irã. Rotas culturais, festivais, residências artísticas, exposições e uma plataforma digital comum também são apontados como formas de ampliar a circulação e a monetização de conteúdos.
Para os investidores, as oportunidades abrangem cinco grupos: conteúdo, infraestrutura digital, ativos intelectuais, capital humano e mecanismos financeiros. Entre os segmentos citados estão jogos, plataformas de mídia, tecnologias de inteligência artificial, design e marcas locais com potencial de exportação. A concentração de talentos e infraestrutura faz de Xangai e Pequim polos tecnológicos, de Dubai um centro de design premium, de Moscou um núcleo de tecnologia da informação e design industrial e de Mumbai um centro cinematográfico.


