A proximidade da eleição já influencia os preços das ações brasileiras, mas não elimina a incerteza sobre os próximos movimentos da Bolsa. Analistas avaliam que a alta recente do Ibovespa não é suficiente para justificar uma mudança brusca de posição, seja para ampliar muito a exposição, seja para deixar completamente a renda variável.
Até o último pregão na sexta-feira (25), o Ibovespa acumulava alta de 10,3% desde 18 de agosto, quando iniciou a recuperação após as quedas registradas em julho e na primeira quinzena do mês passado. Em setembro, o índice avançava 2,09%.
O movimento foi acompanhado por entrada líquida de capital estrangeiro, enquanto os investidores institucionais locais reduziram posições. Até o dia 24 de setembro, os estrangeiros haviam colocado R$ 9,06 bilhões na Bolsa, e os investidores institucionais locais tinham retirado R$ 7,20 bilhões, de acordo com os dados de fluxo da B3.
Eleição não deve ser tratada como aposta de curto prazo
O descompasso entre os fluxos ajuda a explicar a dúvida dos investidores: parte das expectativas sobre o resultado das urnas já foi incorporada aos preços, mas ainda existe espaço para mudanças após a definição eleitoral.
Para Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, tentar capturar uma alta ou evitar uma queda com base em uma previsão eleitoral envolve risco elevado. “Apostar no resultado é cara ou coroa. Quem tem posição de longo prazo, mantém. Quem quer entrar, entra aos poucos”, afirma.
Daniel Castro, CEO da Inter Asset, também defende uma exposição calibrada. Na avaliação dele, os preços atuais ainda podem oferecer potencial de alta caso o próximo governo apresente uma agenda de ajuste fiscal mais forte, mas a decisão deve considerar a margem de segurança e o risco que o investidor aceita assumir.
André Matos, CEO da MA7 Capital, afirma que a eleição não deve determinar sozinha a decisão de investir em ações. O principal critério seria a combinação entre o horizonte do investimento e a tolerância à oscilação.
A diferença é relevante para quem precisará do dinheiro em breve. Segundo Matos, recursos que serão usados em seis meses não deveriam estar em ações, independentemente da eleição. Para quem investe com horizonte de cinco anos, uma semana não altera a tese de longo prazo.
André Motta, especialista em investimentos da Valor Investimentos, considera que a indefinição torna arriscada uma aposta direcional. Na avaliação dele, posicionar a carteira agora para um dos lados equivale a fazer uma aposta de resultado incerto.
Alta recente ainda não representa um rali completo
O Ibovespa saiu de cerca de 166 mil pontos na mínima de agosto e terminou a semana passada acima de 183 mil pontos, uma recuperação superior a 10%. Para Iuri Franceschini, fundador da Acta Partners, porém, interpretar todo esse movimento como uma antecipação completa do resultado eleitoral seria exagero.
A avaliação é que parte da alta correspondeu a uma redução da pressão vendedora estrangeira, e não necessariamente a uma onda generalizada de otimismo. Franceschini observa que o índice ainda não está em máxima histórica e que muitos ativos continuam defasados por falta de fluxo, especialmente as small caps.
O JP Morgan também identifica possibilidade de reprecificação das ações brasileiras caso o mercado veja uma trajetória de maior disciplina fiscal e queda dos juros. O banco afirma, porém, que o resultado eleitoral sozinho não basta para transformar um cenário de deterioração em melhoria.
O MSCI Brasil, índice que acompanha empresas brasileiras de médio e grande porte, é negociado a 8,6 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses. Segundo o JP Morgan, esse múltiplo fica entre os cenários de deterioração e melhoria construídos pelo banco com base nos múltiplos dos últimos dez anos.
Em um cenário de melhoria, o banco estima potencial de alta de 28% para o MSCI Brasil a partir dos níveis atuais. Já em uma hipótese de correção estrutural, com o múltiplo preço sobre lucro médio chegando a 13,3 vezes, o potencial implícito seria de 54%.
A instituição ressalta que uma valorização mais consistente dependeria também da percepção sobre a direção e a implementação da política econômica, incluindo os possíveis candidatos a ministro da Fazenda e a composição do gabinete. Para Simão, o sinal fiscal das primeiras semanas será mais relevante do que o nome eleito.
Como ajustar a carteira
Para quem investe no longo prazo, os analistas não recomendam transformar a semana eleitoral em uma alteração estrutural da carteira. Já os investidores com menor tolerância a risco podem reduzir a exposição, sem necessariamente sair completamente da Bolsa.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, recomenda uma posição menor e seletiva, com preferência por empresas de caixa forte, baixo endividamento e resultados menos dependentes do cenário político. A preservação de liquidez também pode permitir novas compras caso surjam preços mais baixos após a eleição.
Investidores dispostos a correr mais risco podem buscar ativos que ainda estejam distantes das máximas e sejam mais sensíveis a uma mudança de percepção sobre o Brasil. Franceschini cita as small caps e empresas expostas ao ciclo doméstico como possíveis beneficiárias de um cenário pró-mercado.
Se a reação do mercado após as urnas for negativa, uma alternativa é esperar a estabilização dos preços e concentrar a busca em empresas com fundamentos mais resilientes. Para investidores sofisticados, Motta afirma que estruturas com opções podem ajudar a manter a exposição e reduzir o impacto de uma oscilação adversa.


