A NIO e a Geely anunciaram, nesta segunda-feira, 28 de setembro, um acordo para combinar operações de troca e recarga de baterias. A Geely vai integrar seu negócio de troca de baterias ao da NIO e pagar US$ 95 milhões por 30% da empresa resultante, que pretende chegar a 10 mil estações de troca até 2030.
A parceria também prevê coordenação de projetos de veículos, integração das redes de recarga e tentativa de estabelecer padrões comuns para sistemas de substituição de baterias. O movimento ocorre em um setor chinês pressionado pela queda da demanda doméstica, pelo excesso de capacidade industrial e pela necessidade de reduzir custos de infraestrutura.
No primeiro semestre deste ano, NIO e Geely venderam juntas 1,3 milhão de carros elétricos a bateria ou híbridos plug-in. A NIO já opera mais de quatro mil estações de troca de baterias. A Geely, por sua vez, apresentou uma tecnologia de carregamento ultrarrápido capaz de entregar 80% da carga em quatro minutos.
Disputa por redes e padrões tecnológicos
A troca de baterias é um nicho menor do mercado de recarga, mas cresce rapidamente. O processo leva de três a quatro minutos, enquanto uma carga ultrarrápida de 80% demora de seis a oito minutos. A tecnologia elimina a espera e não sofre variação de tempo provocada pelo clima, pelo desgaste da bateria ou pela potência disponível na rede.
O custo para o consumidor depende do plano de assinatura e, em geral, é semelhante ao de uma recarga rápida. O principal obstáculo à expansão está na falta de compatibilidade entre os equipamentos: cada montadora utiliza padrões próprios para tamanho, encaixe e arquitetura das baterias. A padronização buscada por NIO e Geely pode permitir o uso de uma mesma rede por veículos de fabricantes diferentes.
A NIO estabeleceu como meta alcançar 10 mil estações de troca até 2030, com demanda anual de eletricidade superior a 10 bilhões de kWh. A Geely planeja ampliar sua rede para 22 mil estações de recarga até 2027. A empresa também compete nesse segmento com a BYD, que constrói dezenas de milhares de estações ultrarrápidas.
A China já ultrapassou 2,7 milhões de pontos públicos de recarga, segundo dados do governo. O mercado movimenta cerca de US$ 20 bilhões por ano e tem projeções de alcançar US$ 50 bilhões até 2030.
William Li, CEO da NIO, afirmou que a colaboração está aberta a outras empresas do setor. Após o anúncio, as ações da NIO subiram 3,2%, recuperando perdas das duas sessões anteriores.
Pressão sobre as montadoras
O acordo ocorre enquanto as vendas de automóveis na China recuaram 20,8% nos primeiros oito meses deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025. A indústria instalou capacidade suficiente para produzir todos os veículos vendidos no país e ainda absorver a produção dos Estados Unidos e da Europa.
O mercado interno encolhe desde 2017, em um ambiente de desaceleração econômica e queda dos preços dos imóveis, fatores que reduziram a confiança do consumidor. As montadoras ampliaram as exportações para compensar a demanda doméstica. A expectativa é que os embarques chineses alcancem pelo menos 10 milhões de veículos este ano, ante 1 milhão de carros exportados em 2020.
Ainda assim, as linhas de produção operam com pouco mais da metade da capacidade. As fabricantes reduziram preços abaixo do custo de produção, acumulando prejuízos e provocando atrasos nos pagamentos a fornecedores de autopeças.
A BYD, líder do setor na China, registrou queda de 34% nas vendas no varejo doméstico este ano. As vendas da Geely recuaram metade disso, e a empresa quase alcançou a BYD no mercado chinês em 2026.
Consolidação do setor
O movimento entre NIO e Geely faz parte de uma sequência de acordos e discussões sobre reorganização da indústria. Nas últimas semanas, a Guangzhou Automobile Group anunciou uma parceria com a First Automotive Works. Dongfeng Motor e Changan Automobile também discutiram uma fusão no ano passado.
Em comunicado à bolsa de valores divulgado em 15 de setembro, a Guangzhou Auto informou que pretendia emitir ações para a First Auto Works, controlada diretamente pelo governo chinês. Em troca, receberia uma participação em uma joint venture mantida havia anos entre a First Auto Works e a Toyota. A operação transformaria a First Auto Works na segunda maior acionista da Guangzhou Auto, atrás do governo municipal de Guangzhou. A Guangzhou Auto também possui uma joint venture própria com a Toyota.
Para analistas, a reorganização lembra a consolidação do setor de telecomunicações na década de 2000, marcada por excesso de empresas, margens comprimidas e necessidade de padronização tecnológica. “Há simplesmente muitas montadoras na China”, disse David Zhang, professor visitante da Universidade de Ciência e Tecnologia de Huanghe, na China.
Nesse ambiente, a parceria entre NIO e Geely combina a busca por infraestrutura compartilhada com a tentativa de responder à saturação do mercado. A coordenação entre as empresas pode ampliar a interoperabilidade das redes e reduzir a fragmentação dos sistemas de troca de baterias.



