A percepção dos investidores sobre a disputa presidencial passou a influenciar diretamente os ativos brasileiros. Em pouco mais de duas semanas, o Ibovespa subiu de 166 mil pontos para acima de 185 mil pontos, em um movimento associado à mudança nas expectativas sobre a eleição de outubro.
A reação ganhou força na quarta-feira (2), quando o principal índice da B3 avançou 3,05%, aos 185.205 pontos. Foi a maior alta diária em mais de cinco meses. O desempenho ocorreu após a divulgação de uma pesquisa Quaest que mostrou Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tecnicamente empatados no segundo turno.
Entre 18 de agosto e 2 de setembro, o Ibovespa acumulou alta de 11,34% em 11 pregões e chegou à 11ª sessão consecutiva de valorização. Depois de permanecer praticamente estável na quinta-feira, 3, e na sexta-feira, 4, o índice encerrou a semana com avanço de 5,40%, o maior desde 23 de janeiro.
O que o mercado está precificando
A leitura predominante entre parte dos agentes econômicos é que uma menor vantagem de Lula aumenta a possibilidade de alternância de poder. Essa expectativa passou a ser associada a uma eventual política econômica mais favorável à redução do risco fiscal, dos juros longos e do custo de capital das empresas.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, afirma que o cenário eleitoral se tornou um dos principais fatores de formação dos preços dos ativos. Para ele, o mercado não necessariamente está projetando uma vitória da direita, mas atribuindo maior probabilidade à alternância de poder.
Essa mudança pode favorecer a Bolsa e o real, além de reduzir a curva de juros, principalmente nos vencimentos mais longos, que são mais sensíveis ao risco fiscal. Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, avalia que as pesquisas colocaram em dúvida um cenário de reeleição de Lula que vinha sendo consolidado por muitos investidores.
O chamado trade eleitoral consiste em antecipar os possíveis efeitos econômicos dos próximos quatro anos. A hipótese considerada por parte do mercado é que uma eventual mudança para um governo de centro-direita alteraria a trajetória fiscal e o ambiente de negócios. A avaliação, contudo, ocorre antes de os investidores conhecerem o programa fiscal e sua capacidade de execução.
Reflexos nos ativos e riscos
A redução percebida no risco fiscal tende a afetar os juros. Quando os juros longos caem, aumenta o valor presente dos fluxos de caixa das empresas, o que pode beneficiar companhias domésticas mais dependentes do custo de capital.
A recuperação do Ibovespa veio depois de uma queda de 6,55% em 11 pregões entre 3 e 18 de agosto, período em que o índice chegou aos 166.335 pontos. Na quarta-feira, apenas três ações terminaram em baixa. Magazine Luiza, Vamos e Azzas registraram altas de dois dígitos, enquanto as ações preferenciais da Petrobras fecharam em máxima histórica nominal de R$ 48,20.
O fluxo estrangeiro também contribuiu para a reação. A análise de um gestor de uma grande casa de investimentos é que o desempenho brasileiro precisa ser comparado ao de outros mercados emergentes para separar os efeitos externos do componente eleitoral. Segundo ele, o fim de um movimento de venda de ativos brasileiros e a melhora relativa do ambiente externo ocorreram ao mesmo tempo em que as pesquisas passaram a indicar uma disputa mais equilibrada.
A crise envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, também entrou no radar. Para Sidney Lima, o impacto sobre os ativos depende de o episódio alterar a intenção de voto, a mobilização eleitoral ou a percepção sobre as instituições.
Uma escalada entre STF, PGR, Congresso e forças políticas, porém, poderia mudar a interpretação do mercado. Nesse cenário, os investidores deixariam de considerar apenas a eleição e passariam a incorporar um prêmio adicional de risco institucional.



