SÃO PAULO — O tênis feminino chega à segunda edição do SP Open com sinais de maior valorização comercial e esportiva. O torneio reúne 45 patrocinadores e terá cinco brasileiras na chave principal, enquanto o circuito internacional vive uma fase de exposição ampliada após o US Open, vencido por Elena Rybakina sobre Aryna Sabalenka.
A competição será realizada no Parque Villa-Lobos e terá como principais atrações internacionais a canadense Leylah Fernandez, vice-campeã do US Open em 2021, e a espanhola Paula Badosa, ex-número 2 do mundo. Laura Pigossi, Victoria Barros, Nauhany “Naná” Silva, Gabriela Cé e Carol Meligeni Alves representam o Brasil.
Beatriz Haddad Maia não participará do torneio. Durante uma pausa na carreira, a principal jogadora brasileira passará por uma cirurgia no ombro esquerdo. Para Ricardo Acioly, diretor do SP Open, a visibilidade conquistada pelas mulheres abre espaço para um produto próprio dentro do esporte. “O tênis feminino atrai o holofote e isso é muito bom para nós”, afirmou.
Um torneio com identidade comercial própria
Acioly defende que o circuito feminino não seja subordinado ao masculino. Na avaliação dele, os dois podem formar um produto combinado nos Grand Slams e em alguns eventos de ATP e WTA, mas o feminino precisa manter sua própria estrutura, público e sustentação ao longo do ano.
A experiência da primeira edição reforçou essa possibilidade. O SP Open recebeu 33 mil pessoas, número que, segundo o diretor, mostra a disposição do público de acompanhar o tênis feminino. A organização também aposta em uma experiência que ultrapassa a partida: o evento terá comida, bebida, showrooms e ativações de patrocinadores, em um formato inspirado na experiência do Rio Open.
Claro, Heineken 0.0, Bradesco e Allos estão entre os principais patrocinadores. A preocupação imediata da organização, porém, é operacional: a semana anterior ao início do qualifying foi marcada pela chuva em São Paulo. Acioly, conhecido no tênis como Pardal, disse que a programação exigirá cooperação das jogadoras e alinhamento da equipe.
O diretor também ocupa a direção do Rio Open. Ex-atleta profissional, foi treinador do chileno Marcelo Rios, do brasileiro Fernando Meligeni e da argentina Gabriela Sabatini. Para ele, o Rio Open, lançado há 13 anos como um ATP 500, abriu caminho para a inclusão de um torneio feminino de maior porte no calendário brasileiro. Hoje, o país tem um WTA 250 e um ATP 500; subir para um WTA 500 ou um WTA 1000 seria, na visão dele, quase impossível diante da configuração do circuito.
Receita maior, temporada mais pesada
A expansão comercial convive com uma preocupação física. Acioly afirma que o calendário ficou mais apertado depois que torneios de duas semanas passaram a ocupar espaço no nível mais alto. A mudança elevou a premiação e criou um fundo extra, mas também aumentou o tempo total de competição e a quantidade de compromissos assumidos pelos atletas.
Os torneios mais longos permitem mais intervalo entre as partidas. Ao mesmo tempo, a temporada passou a consumir praticamente o ano inteiro. O resultado, segundo o diretor, começa a aparecer no desgaste e nas lesões. A receita cresce porque há mais dias de operação, mas os jogadores também enfrentam uma carga maior dentro e fora da quadra.
Acioly vê um dilema entre preservar a tradição das partidas e reduzir o esforço físico. Uma possibilidade seria adotar o no-ad no 40 iguais, eliminando a vantagem quando o game chega ao 40 a 40. A medida encurtaria os games mais demorados, mas ele ressalva que o público continua acompanhando partidas longas e decisivas, como os jogos de cinco sets no US Open.
A estrutura do tênis dificulta uma decisão conjunta. Os quatro Grand Slams têm autonomia para administrar seus torneios, enquanto a ATP cuida do circuito masculino, a WTA administra o feminino e a ITF gere a parte de baixo do circuito e a Copa Davis. Como as entidades e os eventos têm interesses próprios, qualquer alteração pode beneficiar um grupo e pressionar outro.
A proposta considerada mais viável por Acioly seria proteger os jogadores do topo com mais descanso no fim da temporada, sem interromper a competição para todos. Ele cita a faixa entre a 50ª e a 70ª posição como uma zona em que os atletas precisam continuar disputando torneios para não perder espaço no ranking. Um calendário mais concentrado, na avaliação dele, poderia favorecer carreiras mais longas.
Formação brasileira e espaço para as duplas
O SP Open também funciona como oportunidade para jovens brasileiras. Acioly destaca Naná Silva e Vitória Barros, ambas reconhecidas no juvenil, e afirma que a participação em um evento desse nível pode acelerar suas carreiras. Sem esse tipo de convite, elas teriam de passar por etapas classificatórias antes de adquirir experiência em uma competição desse porte.
Na avaliação do diretor, o tênis brasileiro atravessou diferentes ciclos de renovação. Marcelo Melo e Bruno Soares mantiveram o país em evidência nas duplas antes da ascensão de Bia Haddad. Depois, João Fonseca ampliou a atenção sobre a nova geração. Esses resultados, segundo Acioly, ajudaram a reativar o trabalho de formação infantojuvenil e estimularam treinadores, iniciativas e academias voltadas ao alto rendimento.
Ainda falta, porém, um projeto mais amplo e coeso para organizar esse movimento. Acioly afirma que o país tem potencial humano e cita resultados de equipes juvenis brasileiras, mas considera necessário oferecer uma direção comum para a formação.
As duplas também aparecem no debate sobre o futuro do esporte. Acioly, que teve seus melhores resultados nessa modalidade, avalia que a especialização separou os duplistas dos jogadores de simples e reduziu sua capacidade de produzir ídolos reconhecidos pelo público geral. Para ele, as duplas mistas do US Open mostraram uma alternativa: os estádios ficaram cheios, mesmo com participantes que não eram todos especialistas.
O diretor defende experimentações semelhantes em outros torneios. Ao mesmo tempo, preserva a ideia de que o tênis depende do drama produzido por uma disputa sem duração fixa. A questão central, portanto, não é apenas ampliar receitas, mas encontrar uma forma de fazer o crescimento do circuito não afastar os atletas nem diluir os elementos que atraem o público.



