A trajetória de Alcione Albanesi à frente do Amigos do Bem começou a mudar em dezembro de 2001, depois de um encontro no sertão cearense. Geralda havia caminhado seis quilômetros até o povoado de São Francisco, com os pés feridos e as pernas inchadas pela elefantíase. Ao encontrar os voluntários, sua principal preocupação era saber se havia comida para os filhos.
A mulher contou que alimentava as crianças com pouco feijão e muito caldo. Ela própria se servia por último e dizia ter perdido a capacidade de comer normalmente. A situação levou Alcione a concluir que distribuir alimentos, roupas e remédios não bastava. “Era preciso ficar, transformar e levá-las a um futuro realmente diferente”, afirmou.
De assistência emergencial a uma estrutura permanente
Fundado por Alcione em 1993, o Amigos do Bem passou a combinar segurança alimentar com educação, saúde, acesso à água, moradia e geração de renda. Hoje, a organização atende cerca de 150 mil pessoas todos os meses, em 300 vilarejos de Pernambuco, Alagoas e Ceará.
A operação é sustentada por 11 mil voluntários e por doações de pessoas e instituições. Gol, Latam, Azul, Volvo e Patrus estão entre as empresas que contribuem com dinheiro, produtos e serviços. A presidente afirma que a participação de doadores mensais é necessária para ampliar o trabalho e enfrentar o ciclo de pobreza no sertão.
A expansão exigiu uma estrutura própria para levar equipes, materiais e alimentos a comunidades distantes. Foram criadas unidades de distribuição, escolas, centros de saúde e moradias. Depois, vieram os centros de formação profissional, as oficinas de empreendedorismo e o microcrédito.
Os beneficiários também passaram a produzir castanhas, mel, pimentas, doces, artesanatos e kits. Esses itens são vendidos no site da organização, no Mercado Livre e no Magalu, além de lojas do Pão de Açúcar e do Carrefour. A proposta é associar o atendimento imediato à criação de condições para a autonomia econômica.
Educação e geração de renda
Em Inajá, no sertão pernambucano de Moxotó, uma escola municipal apoiada pelo Amigos do Bem alcançou 9,8 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) em 2026. Os estudantes permanecem em período integral, recebem quatro refeições por dia, têm transporte e acompanhamento individualizado.
A organização também trabalha com as famílias e realiza busca ativa para reduzir a evasão e o trabalho infantil. Um estudo do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) estima que cada R$ 1 doado se converta em R$ 6,45 de impacto socioambiental.
Entre 2012 e 2021, os investimentos feitos pelo Amigos do Bem produziram ou ainda produzirão R$ 2,1 bilhões em benefícios para a sociedade. Trabalho e renda representam 38,4% desse retorno, enquanto a educação responde por 35,7%. As contas são auditadas externamente pela Ernst & Young.
A história de Sara ilustra um resultado que não aparece apenas nos indicadores. Nascida no Catimbau, em Pernambuco, ela cresceu na pobreza, chegou ainda criança à organização, estudou e concluiu duas graduações. Depois, relatou sua trajetória na sede das Nações Unidas, em Nova York. Agora, prepara-se para dirigir uma unidade de capacitação profissional do Amigos do Bem.
Negócios e filantropia
Alcione cresceu em uma família religiosa ligada à caridade. Era filha de Guiomar de Oliveira Albanesi e do construtor Serafim Antônio Albanesi, e acompanhava desde cedo o trabalho social da mãe em comunidades pobres da capital paulista.
Sua trajetória empresarial incluiu uma confecção, uma passagem pelo mercado imobiliário e o trabalho como modelo. Em 1989, abriu uma loja de materiais elétricos. Três anos depois, viajou sozinha à China para comprar lâmpadas fluorescentes. A primeira tentativa terminou com uma perda de US$ 100 mil, porque os produtos adquiridos não atendiam às especificações elétricas brasileiras.
Alcione voltou ao país asiático e conheceu as lâmpadas fluorescentes compactas, então pouco comuns no Brasil. A aposta deu origem à FLC. Com a crise do apagão, no início dos anos 2000, a procura aumentou, e a empresa montou uma estrutura própria na China.
Em 2014, Alcione inaugurou a primeira fábrica de lâmpadas LED no país. O negócio foi vendido depois ao fundo americano Victoria Capital Partners. Naquele momento, a empresa faturava cerca de R$ 300 milhões por ano e tinha aproximadamente um terço do mercado brasileiro de lâmpadas.
A experiência empresarial foi incorporada à atuação social. Gestão, planejamento, negociação e controle de custos passaram a fazer parte da operação no sertão. Alcione resume essa combinação ao dizer: “O amor é a base, mas tem de ter competência, conhecimento e processos”.
Ela também manteve a dedicação direta às comunidades. Durante mais de duas décadas, conciliou a administração da FLC com cerca de dez dias por mês de trabalho no sertão. A fundadora afirma que as duas trajetórias, empresarial e filantrópica, acabaram se conectando na construção do Amigos do Bem.



