A ação do candidato a deputado federal Wilker Leão (Novo) no Instituto de Artes (IdA) da Universidade de Brasília (UnB) recolocou no centro do debate a função da universidade pública e os conflitos políticos em torno da instituição. No domingo (27), ele pintou de branco paredes do departamento e cobriu manifestações artísticas feitas por estudantes.
A Polícia Federal prendeu Wilker em flagrante. A universidade informou que estudantes foram agredidos durante o episódio e acionou o protocolo de segurança. Na segunda-feira (28), a Justiça Federal concedeu liberdade provisória ao candidato, sem fiança ou medidas cautelares.
O episódio ocorreu depois de uma sequência de conflitos entre Wilker e a UnB. Ex-estudante da instituição, ele foi expulso em setembro de 2025, após um processo disciplinar relacionado à gravação de professores e estudantes sem consentimento. A nova ação voltou a levantar discussões sobre o uso do campus como espaço de disputa política.
Conflitos atuais e passado da universidade
Para Eliene Novaes, professora da UnB e ex-presidenta da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), as ações do candidato estão associadas à busca por visibilidade política. Ela afirmou que a gravação e o constrangimento de professores, seguidos da expulsão e da atuação no Instituto de Artes, fazem parte de estratégias ligadas à construção da extrema direita.
A professora também relaciona os conflitos atuais às mudanças no perfil das universidades públicas. Segundo ela, a expansão do acesso ao ensino superior e as políticas de inclusão tornaram essas instituições mais acessíveis à população pobre, negra e oriunda de escolas públicas. Na avaliação de Eliene, essa transformação passou a ser contestada por setores da elite e da extrema direita.
A trajetória da UnB inclui episódios de repressão durante a ditadura militar. O campus foi invadido em 1964, 1965, 1968 e 1977. Na primeira ocupação, tropas do Exército entraram na universidade, revistaram salas e procuraram professores considerados subversivos. O então reitor Anísio Teixeira foi afastado.
No ano seguinte, 223 professores e assistentes deixaram a instituição em protesto contra a repressão. Em agosto de 1968, uma nova operação levou mais de 500 pessoas para a quadra de basquete do campus e resultou em 60 prisões. Em 1977, tropas militares retornaram à universidade durante uma greve de estudantes e professores.
Para Diego Diehl, diretor da ADUnB, a repressão do período da ditadura e os ataques atuais têm em comum a disputa sobre a produção livre de conhecimento. Ele afirmou que espaços de produção autônoma e crítica foram atacados no passado e continuam sob pressão, associando os atuais opositores das universidades a setores saudosos da ditadura militar.
Inclusão e disputa política
O Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN) também classificou as ações contra universidades públicas como parte de uma disputa política. Para Cláudio Mendonça, presidente da entidade, grupos ligados ao bolsonarismo, ao Partido Novo e ao Partido Missão identificam o espaço público e o potencial democrático das universidades como uma ameaça.
Mendonça associou essa disputa ao crescimento das políticas de cotas e à expansão territorial das universidades e dos institutos federais. Segundo ele, as instituições passaram a reunir um público mais negro, periférico, feminino e LGBTQIA+.
Diehl afirmou que a ampliação das vagas e as políticas de inclusão permitiram a entrada de novos grupos em uma instituição voltada à ciência, à cultura e à formação profissional. Na avaliação dele, essa mudança provocou uma reação de setores da extrema direita, que passaram a tentar construir uma imagem distorcida das universidades na sociedade.
A disputa envolve ainda a autonomia e a pluralidade das instituições. Diehl disse que o caráter laico, plural e autônomo da universidade está entre os motivos de sua deslegitimação por parte da extrema direita. Para ele, perspectivas diferentes são atacadas por setores que pretendem submeter o espaço universitário aos interesses do capital e das classes dominantes.
Função social e mobilização
Criada em 1961 e inaugurada no ano seguinte com a presença de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, a UnB foi concebida para integrar ensino, pesquisa e extensão. Na avaliação de Eliene, os ataques atuais atingem a liberdade de produção e circulação do conhecimento e fazem parte de uma estratégia para desqualificar socialmente as universidades.
Para Cláudio Mendonça, o enfrentamento passa pelo fortalecimento orçamentário das instituições e dos mecanismos democráticos. Ele também defendeu o fim da lista tríplice e a retomada da ocupação das universidades por estudantes e trabalhadores, além da mobilização política contra a extrema direita.
Nesta terça-feira (29), estudantes do Instituto de Artes convocaram uma mobilização para repintar os muros do departamento. Marie de Queiroga, presidente do Centro Acadêmico de Artes Visuais (Cavis), afirmou que a ação pretendia responder ao ataque e evitar que episódios desse tipo intimidassem os estudantes.


