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Zuenir Ventura já era imortal antes da cadeira 33 da ABL

A trajetória de Zuenir Ventura reuniu jornalismo, literatura, compromisso com a memória e uma forma generosa de ensinar pelo exemplo.

Zuenir Ventura já era imortal antes da cadeira 33 da ABL

A morte de Zuenir Ventura, aos 95 anos, encerra uma trajetória que combinou jornalismo, literatura, crônica e atuação pública. Mineiro de Além Paraíba, criado em Nova Friburgo (RJ), ele morreu em 2026 depois de uma carreira marcada pela cobertura política, pela investigação jornalística e pela capacidade de formar colegas com atenção e humildade.

Antes de ocupar a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Ariano Suassuna, Zuenir já era tratado como uma referência por jornalistas que trabalharam com ele. A entrada na ABL ampliou o reconhecimento de uma obra que incluía 1968: O Ano que não Terminou, Cidade Partida e Chico Mendes — Crime e Castigo.

O editor do Jornal do Brasil

No fim dos anos 1980, Zuenir trabalhava no Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro. Como editor do caderno Ideias, participava da organização da redação e conduzia projetos editoriais importantes. Também passou por seis meses pelo caderno Cidade, depois da saída de Manoel Francisco Brito, que se tornaria correspondente em Washington.

A redação reunia nomes como João Saldanha, Ancelmo Góis, Zózimo Barroso do Amaral, Miriam Leitão, Ruth de Aquino, Tim Lopes, Rosental Calmon Alves, Cora Ronai e Regina Zappa. Marcos Sá Corrêa era o editor-chefe; Flávio Pinheiro e Roberto Pompeu de Toledo, os editores executivos.

Para os jornalistas mais jovens, Zuenir exercia uma liderança sem formalidade excessiva. Ao mesmo tempo em que cobrava precisão, deixava espaço para a iniciativa. Uma checagem sobre o discurso de Márcio Moreira Alves mostrou esse método. A data correta era 2 de setembro de 1968, e não 3 de setembro, como havia sido escrito em uma matéria. A correção veio acompanhada de um sorriso, não de uma reprimenda.

A cena ficou como uma lição sobre a responsabilidade de conferir fatos, dados e declarações. Zuenir ensinava também ao estimular os repórteres a se aproximarem das histórias, a fazer perguntas e a assumir responsabilidades.

A cobertura de Chico Mendes

A reportagem sobre a morte de Chico Mendes, em 1988, foi um dos pontos centrais de sua carreira. O trabalho recebeu o prêmio Esso de Jornalismo em 1989 e resultou no livro Chico Mendes — Crime e Castigo.

Zuenir foi ao Acre para uma cobertura que deveria durar quatro ou cinco dias, mas permaneceu um mês. A investigação reuniu diferentes versões do caso e trouxe à tona Genésio Ferreira da Silva, adolescente que havia testemunhado a conspiração pelo assassinato do líder seringueiro.

A preocupação com a segurança de Genésio levou Zuenir a assumir sua tutela. Havia um plano para sequestrar o garoto, e a avaliação era que ele só estaria protegido longe dali. Genésio passou anos no Rio até atingir a maioridade e manteve com Zuenir uma relação de pai e filho. Também considerava Mauro Ventura, filho do jornalista, um irmão.

A história continuou depois da reportagem. Zuenir e Mauro ajudaram a editar Passaro Sem Rumo, uma Amazônia Chamada Genésio, lançado em 2015 em parceria com o Instituto Vladimir Herzog. Um filme baseado no livro está em desenvolvimento.

Memória, ditadura e literatura

A experiência de Zuenir atravessou diferentes períodos do jornalismo brasileiro. Ele trabalhou no Correio da Manhã, em Fatos&Fotos, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e, nos últimos anos, em O Globo. Também presidiu a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo em 1979.

Sua relação com a ditadura militar incluía a prisão por três meses após o decreto do AI-5, quando trabalhava na revista Visão. Em 1968: O Ano que não Terminou, publicado no contexto do fim dos anos 1980, transformou a memória política em narrativa acessível sem abandonar a complexidade do período.

Ao discursar na Academia Brasileira de Letras, Zuenir resumiu o desconforto diante da nova função: “Sinto-me como um aluno repetente antes de prestar seu exame oral”. A frase expressava o nervosismo diante da cerimônia, mas também a disposição de continuar aprendendo.

O legado entre os colegas

Em dezembro de 2024, durante a 36ª Semana Chico Mendes, que coincidiu com o 80º aniversário de nascimento do ambientalista, a trajetória de Zuenir voltou a ser percorrida em Xapuri, no Acre. Genésio foi reencontrado, e as lembranças da antiga redação do Jornal do Brasil se ligaram à presença do repórter naquela região.

A memória de Zuenir se sustenta tanto nos livros e prêmios quanto nas relações que construiu. Para Mauro Ventura, o pai tinha interesse genuíno pelas outras pessoas e transformava a vida em aprendizado, humildade e descoberta.

Esse legado aparece na forma como antigos colegas recordam o editor: alguém que corrigia sem humilhar, orientava sem sufocar e tratava os mais jovens como profissionais capazes. Sua influência permanece na combinação entre rigor e suavidade, na defesa da memória e na disposição de olhar para o outro.

Zuenir Ventura entrou para a Academia Brasileira de Letras, mas sua condição de imortal já havia sido construída antes, na redação, nos livros, nas reportagens e na vida de quem aprendeu com seu exemplo.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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