Richard Santos relembra o encontro com Zuenir Ventura em Vigário Geral, no Rio de Janeiro, em 1993, quando os moradores ainda viviam o luto pela chacina que matou 21 pessoas. Os dois participaram de uma atividade cultural organizada pelo Grupo Cultural AfroReggae, com crianças, música e ações de convivência comunitária.
Santos fazia parte do AfroReggae e também atuava no Centro de Articulação das Populações Marginalizadas (CEAP), na articulação da juventude negra. Na ocasião, estava acompanhado de Jorge Damião, José Júnior, Teco Rastafari, Mônica, Arcélio Farias, Marcelo Yuka e outros integrantes da iniciativa. Naquele período, era conhecido como Big Richard e encontrava no hip-hop uma forma de organização e luta.
A atividade transcorreu tranquilamente até que o comando local da Polícia Militar decidiu interrompê-la. Segundo o relato de Santos, os participantes foram tratados como suspeitos por serem jovens negros envolvidos na organização cultural e na convivência com os moradores. Houve tiros, repressão e medo, e a saída do grupo foi possível com a ajuda de pessoas da comunidade.
A memória registrada em livro
Santos escreveu sobre o episódio no jornal AfroReggae Notícias, e o caso também foi registrado pela imprensa carioca. Mais tarde, Zuenir Ventura relatou a experiência no livro Cidade partida, incluindo a atuação de Santos na juventude negra e no hip-hop. Para o autor, a presença de Ventura naquele dia deu peso especial ao registro, porque o jornalista conhecia os moradores e o trabalho desenvolvido no local.
A morte de Zuenir, em 22 de setembro, fez Santos retornar à lembrança daquele encontro e à relação de carinho construída entre os dois. Em setembro, pouco antes de receber a notícia, ele esteve novamente no Rio de Janeiro e caminhou pelo Rio Comprido, bairro onde nasceu. Hoje morador de Salvador, descreveu o retorno como uma experiência marcada pela percepção de que a cidade antes chamada de partida permanecia fraturada.
Atualmente, Santos assina Richard Santos e é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia. Também participa do comitê de acompanhamento das decisões do 9º Congresso Pan-Africano ligado à União Africana e exerce a função de chefe de gabinete da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais da Bahia, a Sepromi.
Para ele, a lembrança de Vigário Geral continua relacionada às condições de vida da juventude negra nas periferias. O episódio, afirma, mostra como atividades culturais podem ser recebidas com suspeita e como a proteção é distribuída de maneira desigual. Passados mais de trinta anos, a pergunta sobre quanto a cidade mudou permanece ligada ao direito de circular, criar os filhos, fazer cultura e voltar para casa.
No encerramento do artigo, Santos agradece a Zuenir por ter ajudado a registrar uma história pertencente, прежде de tudo, aos moradores de Vigário Geral. Também destaca o trabalho de uma geração que respondeu à violência com organização, cultura e presença. Para ele, enquanto famílias temerem a violência policial e jovens forem vistos com desconfiança por participar de iniciativas culturais, a comunidade continuará exigindo atenção.


