CARUARU — Benedita Subrinho, jovem travesti que interrompeu o curso de direito na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) depois de enfrentar dificuldades de assistência estudantil e passar por situação de rua, lançou um manifesto poético sobre sua trajetória. Ela também criou uma campanha de doações para tentar retomar os estudos e buscar novos rumos para a vida.
Intitulado “Os Mistérios Dolosos de uma Travesti”, o manuscrito reúne relatos sobre as violências e os enfrentamentos vividos por Benedita em sua busca por reconhecimento de sua identidade e por uma vida digna. A obra percorre episódios da infância, experiências no teatro e sua passagem pelo ensino superior.
Infância, teatro e violência
Benedita voltou a morar com a família, na zona rural de Caruaru, e está desempregada. Foi nessa região que, segundo seus relatos, ocorreram os primeiros conflitos familiares relacionados à sua dissidência de gênero. Um dos episódios envolve um fichário usado para estudar. A retirada de uma divisória rosa, por ser associada à personagem Minnie, é apresentada como uma marca de rejeição e apagamento.
O texto também aborda violências vividas na infância, situações nas aulas de educação física e tentativas de abuso na zona rural. A experiência com as artes cênicas aparece como um momento de liberdade e expressão. “Eu estava viva! A sensação era boa pela primeira vez”, afirma um trecho sobre a descoberta do palco.
A primeira tentativa de cursar o ensino superior ocorreu na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no curso de educação física. Benedita registra no manuscrito que, conforme dados da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra), pessoas trans representam 0,3% dos universitários brasileiros. As dificuldades para obter assistência estudantil e o preconceito enfrentado no ambiente acadêmico contribuíram para que abandonasse o curso. Depois disso, ela relata ter recorrido à prostituição para se manter.
Passagem pela UEPB e campanha
Mais tarde, Benedita ingressou no curso de direito da UEPB, em Campina Grande (PB), por meio de cotas destinadas a pessoas trans. Seu objetivo era contribuir para a criação de precedentes de uma “constituição da travestilidade”. A permanência na universidade, porém, foi interrompida quando ela passou a viver nas ruas.
A repercussão de uma reportagem sobre sua trajetória motivou manifestações de apoio. Esse retorno, segundo Benedita, estimulou a produção do manifesto e a criação da campanha de doações. O projeto está disponível na plataforma Campanha do Bem e pode ser acessado também pelo Instagram @legalmentetravesti.
Com experiência nas artes cênicas, ela prepara uma série de vídeos baseada no conteúdo do manuscrito. A obra termina com a afirmação de que sua trajetória não deve ser tratada como pedido de favor, mas como reivindicação de direitos e reparação.


