MILÃO — Maurizio Gucci foi morto a tiros na manhã de 27 de março de 1995, quando chegava ao escritório no número 20 da Via Palestro, no centro de Milão. Neto de Guccio Gucci, fundador da grife em Florença, ele tinha 46 anos. O crime deu origem a um processo criminal e a uma disputa patrimonial que atravessou décadas e só foi encerrada em 2026 pela Corte Europeia de Direitos Humanos.
Criada em 1921, a Gucci havia se tornado uma das principais marcas italianas de luxo. Na época do assassinato, porém, Maurizio já não participava do controle da empresa. Em 1993, vendeu à Investcorp os 50% que ainda possuía, encerrando a presença da família na direção da companhia.
A investigação e as condenações
As primeiras linhas de investigação consideraram diferentes hipóteses, inclusive possíveis relações entre o crime e os negócios de Maurizio. A apuração mudou de rumo depois que uma informação levou os investigadores ao grupo envolvido na execução. Interceptações telefônicas contribuíram para revelar a trama.
A acusação sustentou que Patrizia Reggiani, ex-mulher de Maurizio, encomendou o assassinato. Para viabilizar o plano, ela teria contado com Giuseppina “Pina” Auriemma, amiga e confidente. Auriemma procurou Ivano Savioni, porteiro noturno de hotel, que teria ajudado a encontrar o executor.
Benedetto Ceraulo foi apontado como responsável pelos disparos, enquanto Orazio Cicala teria conduzido o veículo usado na fuga. Giuseppe Onorato, porteiro do edifício, também foi baleado durante o ataque, mas sobreviveu.
A acusação relacionou a decisão de Reggiani ao ressentimento decorrente da separação e às preocupações patrimoniais associadas à possibilidade de Maurizio se casar novamente. A defesa negou que ela tivesse contratado o assassinato. Reggiani afirmou que havia sido envolvida na trama e chantageada por Auriemma.
Em 3 de novembro de 1998, após meses de julgamento, a Corte de Assise de Milão condenou os cinco acusados. Reggiani recebeu pena de 29 anos como mandante. Ceraulo foi condenado à prisão perpétua. Cicala recebeu 29 anos; Savioni, 26; e Auriemma, 25. A acusação havia pedido prisão perpétua para todos.
A defesa também questionou a capacidade mental de Reggiani. Anos antes do crime, ela havia passado por cirurgia para retirar um tumor cerebral. Os advogados tentaram demonstrar que sua capacidade de compreender e determinar os próprios atos estava comprometida, mas o argumento não foi aceito.
Em março de 2000, a Corte de Apelação de Milão reduziu a pena de Reggiani para 26 anos e revisou as condenações dos demais envolvidos. No ano seguinte, a Corte de Cassação tornou definitiva a pena de 26 anos e afastou a tese de enfermidade mental.
Reggiani deixou o regime fechado depois de 16 anos, quando passou a trabalhar fora da prisão em 2013. No ano seguinte, foi autorizada a cumprir o restante da pena por meio de serviços sociais. Em outubro de 2016, terminou de cumprir a condenação considerando os benefícios previstos pela legislação italiana. Em fevereiro de 2017, a Justiça decidiu não submetê-la aos três anos de liberdade vigiada que ainda estavam previstos; a Promotoria havia apoiado a medida.
A renda vitalícia e a herança
O fim do processo criminal não encerrou os efeitos jurídicos da relação entre Maurizio e Patrizia. Em 1993, durante a separação, os dois firmaram um acordo que previa a ela uma renda vitalícia de 1,1 milhão de francos suíços por ano. Documentos analisados posteriormente pela Justiça italiana também registraram um protocolo assinado em Lugano, em 1994.
Após a morte de Maurizio, surgiu a dúvida sobre a obrigação: ela teria terminado com a morte do devedor ou poderia ser transferida às filhas Alessandra e Allegra Gucci, herdeiras do pai?
A questão se conectou a outra ação. Em 2004, Reggiani e os demais condenados pelo assassinato foram responsabilizados solidariamente pelo pagamento de € 692.758,30 a Paola Franchi, companheira de Maurizio quando ele morreu, como indenização pelos danos sofridos.
Como Reggiani não tinha recursos para pagar, Franchi tentou alcançar o crédito que a ex-mulher dizia possuir contra as filhas em razão do acordo com Maurizio. Reggiani aderiu à ação, dando início à longa controvérsia sobre a existência da obrigação e sua transmissão às herdeiras.
Em 2009, o Tribunal de Milão considerou que a obrigação era pessoal e havia sido extinta com a morte de Maurizio. A Corte de Apelação confirmou essa interpretação. Em 2015, entretanto, a Corte de Cassação anulou a decisão e determinou que o acordo fosse examinado como um conjunto, levando em conta suas cláusulas e a finalidade do ajuste, e não apenas o uso da expressão “vitalício”.
No novo julgamento, a Corte de Apelação de Milão entendeu que o acordo tinha caráter compositivo: seu objetivo era encerrar as disputas patrimoniais decorrentes do divórcio, e não apenas assegurar uma prestação de natureza alimentar. Por isso, concluiu que seus efeitos poderiam continuar depois da morte de Maurizio e que a obrigação havia sido transmitida às filhas.
Em decisão de janeiro de 2017, a Corte reconheceu a continuidade do compromisso apesar da condenação de Patrizia pelo assassinato do ex-marido.
A passagem pela Corte Europeia
Alessandra e Allegra recorreram à Corte de Cassação. As filhas argumentaram que o assassinato havia tornado impossível o cumprimento da obrigação por uma conduta atribuída à própria credora. Também defenderam a aplicação, ao caso, das regras italianas sobre indignidade sucessória previstas no art. 463 do Código Civil e invocaram princípios de boa-fé contratual.
Em 2020, a Corte de Cassação declarou o recurso inadmissível. Parte dos argumentos não foi analisada quanto ao conteúdo porque, na avaliação da Corte, as recorrentes não haviam demonstrado que essas questões tinham sido apresentadas e mantidas no momento adequado das instâncias anteriores. Com isso, permaneceu válida a decisão que reconhecia a transmissão da obrigação.
A disputa chegou à Corte Europeia de Direitos Humanos em maio de 2021, quando Alessandra e Allegra ajuizaram a demanda Gucci Barbieri e Gucci contra Itália. Elas alegaram violação ao art. 8º da Convenção Europeia, relacionado à vida privada e familiar, ao art. 1º do Protocolo nº 1, sobre proteção da propriedade, e ao art. 6º, § 1º, sob o argumento de que a Justiça italiana havia adotado formalismo excessivo ao deixar de examinar parte de suas alegações.
A Corte Europeia não julgou o mérito. Em fevereiro de 2023, as filhas fizeram um acordo com Patrizia, pelo qual se comprometeram a pagar € 3,9 milhões à mãe. As partes renunciaram às demais pretensões ligadas à disputa, com exceção de uma controvérsia tributária específica.
Diante do acordo, a Corte Europeia entendeu que as reclamações haviam perdido atualidade. Em 30 de abril de 2026, por unanimidade, retirou a demanda de sua lista sem analisar o mérito.
A história voltou a alcançar um público mais amplo em 2021, com o lançamento do filme Casa Gucci, dirigido por Ridley Scott. Lady Gaga interpretou Patrizia Reggiani, e Adam Driver, Maurizio Gucci.



