NOVA YORK — A Assembleia-Geral das Nações Unidas reunirá chefes de Estado em um momento de crise financeira, bloqueio decisório e questionamento do multilateralismo. Os discursos dos líderes começam na próxima terça-feira (22), com o presidente Lula (PT) na abertura tradicional dos trabalhos, seguido pelo presidente Donald Trump.
A ONU anunciou no início deste ano um iminente colapso financeiro. Desde o ano passado, países passaram a atrasar contribuições obrigatórias e a reduzir repasses voluntários, usados para financiar ações humanitárias em locais específicos. Com menos recursos, agências da organização transferiram verbas entre si, diminuíram operações ou encerraram atividades.
O impacto alcançou programas de atendimento direto. A resposta mundial ao HIV teve queda de 23% no financiamento em 2025. O programa de testagem foi reduzido em 22%, enquanto a distribuição de camisinhas caiu mais de 90%. A redução atingiu o apoio recebido pelas pessoas atendidas na ponta dessas políticas.
Conflitos e impasses no Conselho de Segurança
A pressão financeira ocorre enquanto o mundo registra o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra (1939-1945). As missões de paz foram reduzidas, assim como o apoio humanitário destinado a crises prolongadas e menos lembradas, entre elas a guerra civil no Sudão, que dura mais de três anos. A ONU afirmou que a ajuda humanitária ao país pode colapsar nas próximas semanas por falta de financiamento.
A organização também não apresentou mediações consideradas importantes para conflitos de maior escala, como os que se desenrolam na Ucrânia e no Oriente Médio. Essa dificuldade é associada ao Conselho de Segurança, principal órgão da ONU, cujas decisões têm sido bloqueadas pelo poder de veto de seus membros permanentes.
Rússia e Estados Unidos estão entre as potências diretamente relacionadas aos conflitos que dificultam a atuação do conselho. A Rússia está envolvida na guerra na Ucrânia. Os Estados Unidos, por sua vez, estão ligados à guerra no Oriente Médio e mantêm apoio a Israel na guerra em Gaza.
Os Estados Unidos, um dos maiores financiadores da ONU, ainda devem mais de US$ 1 bilhão à organização. A dívida foi reduzida no último dia 16, depois de um pagamento de US$ 725 milhões feito por Washington. Trump é um dos críticos da instituição.
Pressão por reforma
A necessidade de reformar o Conselho de Segurança ganhou força, com pedidos para incluir mais países com poder de veto e ampliar a representação das potências emergentes. A proposta é defendida há anos pelo Brasil e também foi verbalizada pelo secretário-geral António Guterres, cujo mandato está nos meses finais.
Guterres lançou no ano passado o ONU80, processo voltado à reforma e ao corte de gastos, com a intenção de tornar a organização mais eficiente. A iniciativa ainda está em andamento, enquanto diplomatas e especialistas avaliam que a dimensão da reforma necessária é maior.
A crise que chega à Assembleia-Geral reúne problemas acumulados desde a fundação da ONU, em 1945: restrições orçamentárias, redução de operações humanitárias, impasses entre grandes potências e dúvidas sobre a capacidade de o sistema multilateral responder aos conflitos atuais. Resta saber se os líderes reunidos em Nova York estarão dispostos a trabalhar para modificar a organização.


