O livro coescrito pelo jornalista russo exilado Roman Badanin sobre Vladimir Putin recebeu, no mês passado, o Grande Prêmio de Estrasburgo. A edição francesa da obra, que tem 800 páginas, foi descrita pelo júri como uma narrativa semelhante a um romance de espionagem, com relatos sobre corrupção, casos extraconjugais, mentiras e vínculos com o crime organizado.
A premiação ocorreu enquanto Badanin sustenta que Putin se tornou prisioneiro das próprias ambições e passou a considerar impossível recuar na guerra contra a Ucrânia. Para o jornalista, a maioria das pessoas próximas ao presidente queria que o conflito terminasse, assim como os comandantes militares que estão no campo de batalha e conhecem “o preço da guerra”.
A guerra e a posição de Putin
A guerra já dura quatro anos e meio e se tornou o maior conflito armado na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Há poucos sinais de que os combates serão interrompidos, enquanto alguns especialistas avaliam que o Kremlin pode se preparar para ampliar o conflito em resposta ao apoio ocidental a Kiev.
Badanin afirma que Putin buscava, no início, uma vitória rápida para fortalecer sua posição dentro e fora da Rússia. O presidente também queria demonstrar que era um “homem de verdade”, segundo o jornalista. A avaliação é que impulsos básicos e paixões humanas fazem parte da personalidade do líder russo.
“Todos estão contra mim. Não posso recuar”, seria o pensamento de Putin, na interpretação de Badanin. O jornalista também rejeita a ideia de que o presidente possa ser tratado como estúpido ou covarde.
Investigação e exílio
Badanin passou mais de duas décadas investigando Putin e seu círculo íntimo. Para escrever o livro, produzido em coautoria com Mikhail Rubin, os dois entrevistaram cerca de 300 pessoas, algumas ligadas diretamente ao presidente.
Os jornalistas foram forçados ao exílio depois que agentes do Serviço Federal de Segurança, o FSB, invadiram suas casas em junho de 2021. Badanin, que fundou o veículo investigativo Proekt, afirma ter ficado chocado com a escala da corrupção e com a sensação de impunidade entre integrantes da elite política russa. Em uma das apurações, viajou a uma ilha caribenha para encontrar um parlamentar russo que chegou de iate.
Putin, de 73 anos e no poder desde 2000, é alvo das investigações reunidas no livro, que também documenta abusos atribuídos ao presidente, a seu círculo íntimo e aos serviços de segurança russos.


