SÃO PAULO — A rede estadual de São Paulo registrou 4.305 resultados estatisticamente atípicos no Provão Paulista de 2025, segundo nota técnica da Rede Escola Pública e Universidade (REPU). O número corresponde a 1,91% dos 224.935 estudantes analisados — proporção 12,7 vezes maior que a referência estatística usada pelos pesquisadores.
A concentração dos casos é um dos principais elementos do estudo. Metade dos resultados ficou reunida em 50 das 3.594 escolas examinadas, o equivalente a 1,4% das unidades. Em 44 escolas com pelo menos 30 participantes, mais de 40% dos estudantes apresentaram desempenho fora do padrão; em algumas, o índice superou 90%. O recorte regional também apontou concentração: metade das ocorrências estava em oito das 91 Unidades Regionais de Ensino.
Como os pesquisadores definiram os casos
A REPU acompanhou o desempenho dos mesmos estudantes nas edições de 2023, 2024 e 2025. Foi considerado atípico o resultado superior a três desvios-padrão em relação ao desempenho esperado. Em uma prova de 90 questões, isso equivale aproximadamente a um salto de 20 acertos.
Pela distribuição estatística considerada normal, cerca de 0,15% dos resultados ultrapassariam esse limite. Nas Etecs, o índice de 2025 foi de 0,17%. Na rede administrada pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP), chegou a 1,91%. Em 2024, haviam sido identificados 1.026 resultados atípicos, ou 0,49%.
A REPU afirma que um resultado isolado não caracteriza automaticamente fraude. Para os pesquisadores, a escala e a concentração dos casos sustentam a hipótese de um problema sistêmico. O estudo também avaliou mudanças no perfil dos alunos, preparação específica para a prova e evolução pedagógica, mas concluiu que essas possibilidades não explicariam satisfatoriamente a distribuição observada.
Efeito sobre as convocações
O Provão Paulista é usado tanto para avaliar a rede quanto para selecionar estudantes para USP, Unicamp, Unesp, Univesp e Fatecs. Ao cruzar os resultados com listas de convocação para o primeiro semestre de 2026, obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação, a REPU identificou 14.271 estudantes da rede estadual convocados para USP, Unicamp, Unesp e Fatecs.
Desse grupo, 1.608 vieram de 128 escolas nas quais mais de 20% dos resultados eram atípicos. Considerando apenas unidades com mais de 40% de ocorrências fora do padrão, foram encontrados 1.266 convocados. Em nove escolas classificadas como extremas, 203 dos 225 estudantes analisados tiveram resultados atípicos, enquanto 192 apareceram nas listas de convocação.
A correlação entre a presença de convocados e a incidência de resultados atípicos chegou a 0,76. A REPU afirma que o fenômeno afetou as listas, mas ressalva que os dados não permitem apontar quais estudantes fraudaram a prova ou quais vagas foram ocupadas em razão de eventuais irregularidades.
Modelo do exame e resposta da secretaria
A nota técnica relaciona o desenho do Provão à possibilidade de conflitos de interesse. O Decreto nº 67.941/2023, assinado por Tarcísio de Freitas, determina a integração do exame ao Saresp. A mesma avaliação também é usada na seleção universitária e em uma política de metas com efeitos financeiros e funcionais para profissionais da rede.
Em 2025, o governo de São Paulo pagou R$ 544 milhões em bônus a servidores. Em 2026, o valor associado aos resultados do Saresp 2025 chegou a quase R$ 1 bilhão. A REPU diz que a combinação de avaliação, seleção e bonificação pode estimular a inflação dos resultados, mas não afirma que os pagamentos tenham causado as anomalias.
A secretaria rejeita a conclusão de fraude sistêmica e afirma que uma anomalia estatística, sozinha, não demonstra irregularidade. A Seduc-SP comparou escolas citadas no estudo com resultados do Saeb e declarou ter encontrado desempenho elevado ou evolução relevante em Matemática em parte delas.
A pasta também confirmou seis casos de estudantes que entraram com celulares nas salas e fotografaram questões em 2025. Segundo a secretaria, não houve acesso antecipado às provas; os exames foram anulados e as equipes escolares receberam novas orientações.
A REPU defende mudanças na fiscalização, controle mais rígido de dispositivos eletrônicos, auditoria permanente e separação entre a avaliação da rede e o vestibular. A edição de 2026 já está em andamento e será usada para o ingresso no ensino superior em 2027.


