Uma pesquisa com 1.404 pessoas em 18 países ocidentais encontrou uma relação estatística entre declarar-se canhoto e posicionar-se mais à esquerda no espectro político. O resultado permaneceu semelhante depois que os pesquisadores consideraram idade, renda, gênero e escolaridade, mas não indica que todos os canhotos votem em partidos ou candidatos de esquerda.
Os participantes classificaram sua posição política em uma escala de dez pontos, da direita à esquerda, e informaram sua lateralidade. Em média, os canhotos ficaram cerca de meio ponto mais à esquerda do que os destros. Na mesma amostra, as mulheres apareceram 0,4 ponto mais à esquerda do que os homens.
A pesquisa foi feita pela internet e não constitui uma amostra representativa de cada país. Houve grande proporção de participantes do Reino Unido, mas a semelhança dos resultados se manteve quando esse país foi retirado da análise. O recorte reuniu países ocidentais para evitar que percepções muito negativas sobre ser canhoto, ainda presentes na Ásia ou na África, distorcessem as respostas.
Identidade e uso da mão
A principal diferença apareceu quando os pesquisadores mediram a lateralidade de outra forma. Em vez de perguntar apenas se a pessoa se considerava canhota, eles verificaram qual mão era usada para escrever, utilizar tesouras, escovar os dentes ou arremessar uma bola.
Nessa medição do comportamento cotidiano, a associação com as opiniões políticas desapareceu. Para os pesquisadores, o contraste enfraquece uma explicação baseada exclusivamente na biologia: se o uso efetivo da mão esquerda fosse o fator principal, a relação também deveria aparecer nas atividades práticas. O resultado sugere que a percepção de ser canhoto pode ter mais importância do que a mão usada predominantemente.
A associação foi mais forte em países latinos como França, Espanha e Itália. Nesses locais, a oposição entre esquerda e direita estrutura de maneira intensa o debate político. A interpretação proposta é que, quanto mais presente essa distinção simbólica no debate público, maior tende a ser a relação observada.
Hipóteses para o resultado
Uma possibilidade é o chamado egotismo implícito, mecanismo pelo qual as pessoas tenderiam a preferir, de forma inconsciente, aquilo que se assemelha a elas. Essa hipótese ajudaria a explicar por que a palavra esquerda, usada tanto para descrever a preferência manual quanto uma orientação política, poderia criar entre canhotos uma afinidade sutil com movimentos de esquerda.
Outra explicação considera a experiência social dos canhotos como integrantes de uma minoria. Eles representam de 10% a 15% da população e enfrentaram estigmatização ao longo da história. Até a década de 1970, crianças canhotas ainda eram forçadas em muitos casos a escrever com a mão direita na escola, especialmente na França. Na Índia e no Oriente Médio, comer com a mão esquerda ainda é mal visto em algumas culturas.
Essa experiência poderia favorecer valores de tolerância e proteção de minorias, frequentemente associados à esquerda política. A linguagem preserva marcas dessa história: em francês, gauche também designa alguém desajeitado; em italiano, sinistra significa tanto esquerda quanto sinistro.
Uma terceira hipótese é neurobiológica. A preferência por uma das mãos reflete parcialmente a organização cerebral formada no início do desenvolvimento. Nos canhotos, as funções cerebrais seriam, em média, um pouco menos distribuídas entre os hemisférios, com maior intercâmbio entre eles. Alguns pesquisadores relacionam essa organização a maior flexibilidade cognitiva e abertura a novas ideias, características frequentemente associadas a sensibilidades políticas de esquerda.
Os próprios resultados, porém, limitam essa explicação. O efeito aparece quando as pessoas se declaram canhotas, mas não quando se observa apenas qual mão elas usam nas tarefas cotidianas.
Limites da associação
A literatura de ciência política já relaciona preferências eleitorais a fatores sociais e, mais recentemente, a traços de personalidade. Gerber et al. (2010) e Mondak (2010) estudaram características como abertura à experiência e extroversão. Alford, Funk e Hibbing (2005), com dados sobre gêmeos, investigaram a parcela biologicamente hereditária da ideologia política.
O estudo sobre lateralidade não afirma que ser canhoto determine uma escolha eleitoral nem que mudar de mão altere uma ideologia. Os casos de Fidel Castro e Benjamin Netanyahu, ambos canhotos, são apresentados como exemplos de que esse grupo não forma uma categoria política homogênea.
A conclusão é que opiniões políticas podem ser influenciadas não apenas por avaliações racionais, mas também por experiências sociais e associações simbólicas que nem sempre são conscientes. Os pesquisadores citam ainda outras características que começam a ser investigadas, como ter irmãs, condição que poderia tornar os homens mais conservadores.


