A eleição presidencial de 2026 terá Lula (PT) em busca de um quarto mandato e Flávio Bolsonaro (PL) como principal oponente, com Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e outros nomes também no cenário. O pleito está marcado para 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro, e cerca de 158 milhões de brasileiros poderão votar.
Mais do que uma disputa entre candidaturas e partidos, o embate é apresentado como um teste para a relação da política brasileira com a inteligência artificial. A questão central, na análise de Sérgio Ribeiro, é se a esquerda — especialmente o PT — conseguirá formular uma visão de futuro para a tecnologia, em vez de reagir a ela apenas por meio da regulação ou de usos eleitorais imediatos.
Estratégias diferentes para a inteligência artificial
Lula determinou que a campanha limite o uso de IA a tarefas de apoio e aperfeiçoamento. A orientação impede a criação de vídeos e imagens que coloquem o presidente em situações fictícias. O candidato justificou a decisão dizendo que “um cidadão que aprendeu a ter caráter com a dona Lindu não aceitará Inteligência Artificial para fazer campanha política”.
A estratégia combina uma defesa da autenticidade com uma preocupação jurídica. Ao priorizar imagens reais, o PT procura reduzir o risco de questionamentos na Justiça Eleitoral, enquanto prepara uma atuação no TSE por regras mais rígidas para o uso da tecnologia. O contraste pretendido é entre o candidato real e conteúdos produzidos artificialmente.
Flávio Bolsonaro, por outro lado, adotou uma postura mais aberta ao uso de IA. O senador publicou vídeos que projetam seu futuro como presidente, e sua campanha lançou a plataforma Direita Já para distribuir materiais a apoiadores. Entre os conteúdos estão vídeos com imagens de Lula geradas por inteligência artificial, apontados no texto como incompatíveis com as normas eleitorais.
Essa estrutura é descrita como um ecossistema digital que depende menos das formas tradicionais de organização partidária. A vantagem, porém, seria principalmente tática. O uso de ferramentas digitais amplia a circulação de mensagens, mas não aparece acompanhado de um programa detalhado sobre os efeitos da inteligência artificial na economia, no trabalho ou na vida cotidiana.
Regulação sem projeto de futuro
A crítica dirigida à esquerda não é à existência de regras para a tecnologia. A regulação pode proteger cidadãos e criar condições para o desenvolvimento tecnológico. O problema, segundo a análise, surge quando ela se transforma no principal horizonte da ação política.
O PT e seus aliados concentram esforços em projetos de lei sobre IA e em iniciativas no TSE para restringir seu uso em campanhas. O governo Lula editou decretos e leis sobre o tema em 2025 e 2026. A avaliação apresentada é que essas medidas se concentram na prevenção e na proteção, sem formular uma agenda de construção tecnológica.
Em junho de 2026, o PT lançou a plataforma Porta-Vozes de Lula, que reúne inteligência artificial, cadastro de apoiadores, comunidades de WhatsApp e distribuição diária de conteúdo. A secretária nacional adjunta de comunicação do partido afirmou: “vamos colocar à disposição nossa inteligência artificial a favor da democracia, a favor da verdade, a favor do Brasil”. O ministro Guilherme Boulos declarou que a ferramenta também serviria para coordenar o encaminhamento de mensagens em massa e unificar a narrativa.
A adoção dessas ferramentas é vista como uma resposta à vantagem digital da direita, mas sem uma concepção mais ampla sobre o papel da tecnologia. A esquerda passa, assim, a utilizar mecanismos semelhantes aos que antes criticava, como as chamadas milícias digitais e ações coordenadas nas redes, sem apresentar uma proposta própria de futuro.
Inclusão digital e disputa programática
A análise também aponta o risco de o Brasil permanecer como espectador da revolução da IA. Exclusão digital, pouca diversidade e obstáculos que deixam milhões fora desse processo aparecem como problemas centrais. Nenhum dos principais candidatos, segundo o texto, apresentou um plano consistente para inclusão digital, formação de profissionais em IA, criação de uma indústria nacional de tecnologia ou apropriação social dessas ferramentas.
O debate eleitoral permanece concentrado em dois campos: o jurídico, dedicado a discutir como regular, e o tático, voltado a definir como usar a tecnologia em campanha. Falta, nessa leitura, uma agenda programática capaz de discutir como a IA pode alterar a jornada de trabalho, a renda e as formas de organização social.
Para Sérgio Ribeiro, a dificuldade da esquerda não se resume à comunicação eleitoral. Ela envolve a capacidade de formular uma alternativa tecnológica ao modelo associado ao Vale do Silício. O desafio seria substituir a postura apenas defensiva por uma atuação construtiva, que combine regulação, inovação e um projeto nacional.
As eleições de 2026 aparecem, nesse sentido, como uma oportunidade para que a política brasileira trate a inteligência artificial como tema de Estado e não somente como instrumento de campanha. A transformação tecnológica, na avaliação apresentada, exigirá mais do que cautela jurídica ou entusiasmo instrumental: exigirá uma definição sobre o país que se pretende construir diante das mudanças digitais.



