A atuação do governo Donald Trump sobre o processo eleitoral brasileiro passou, na avaliação do professor de Relações Internacionais Gilberto Maringoni, da possibilidade à evidência concreta. Ele cita o discurso do presidente dos Estados Unidos nas Nações Unidas e o acordo firmado por 14 países latino-americanos para classificar organizações criminosas, entre elas o PCC e o CV, como terroristas.
Maringoni, da Universidade Federal do ABC (UFABC), afirma que a interferência começou no ano passado, com a imposição do tarifaço posteriormente revogado pela Suprema Corte estadunidense. Naquele momento, Brasil e China chegaram a ser os dois países mais tarifados, com 50%, em uma medida que, segundo ele, representava pressão sobre o governo Lula. O professor também observa que Lula procurou mecanismos diplomáticos de negociação.
Escudo das Américas e eleições
Para Maringoni, o uso do Escudo das Américas é grave porque o conceito de narcoterrorismo, associado por ele à extrema direita, pode abrir precedente para ações militares na América Latina em um período de isolamento do Brasil. A classificação vincula organizações criminosas não apenas a atividades à margem da lei, mas também a projetos de mudança de governo ou de regime e a atos violentos contra a população civil.
Nesse cenário, o professor afirma que Donald Trump pode recorrer ao Tratado Interamericano de Auxílio Recíproco, firmado durante a Guerra Fria e descrito por ele como uma espécie de Otan latino-americana.
Uma carta enviada por parlamentares democratas dos Estados Unidos ao Departamento de Estado manifesta preocupação com possíveis interferências nas eleições de outubro. O documento menciona o encontro de Trump com o candidato Flávio Bolsonaro (PL) e pede que a Casa Branca respeite e reconheça o resultado eleitoral brasileiro.
Maringoni relaciona o episódio ao processo de deslegitimação das eleições na Venezuela, iniciado em 2024, e ao ataque de 3 de janeiro, que, conforme sua avaliação, culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro. Para ele, deixar de reconhecer um governo permite romper acordos de cooperação, comerciais e militares, sob a justificativa de que a autoridade em exercício seria ilegítima.


