A notícia e o que está por trás
Brasil

Brics busca saída para impasse entre Índia, Emirados e Irã

Crise interna do bloco é atribuída à mudança nas alianças externas de seus membros e exige uma resposta gradual, segundo análise de Fabiano Mielniczuk.

Brics busca saída para impasse entre Índia, Emirados e Irã

A crise entre Irã e Emirados Árabes Unidos (EAU) ameaça paralisar a agenda do Brics e pode impedir, pela primeira vez, a publicação de uma declaração conjunta ao fim da cúpula de setembro. A avaliação é de Fabiano Mielniczuk, professor de Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que aponta a presidência indiana do grupo como decisiva para tentar recompor as relações entre os integrantes.

Diplomatas próximos às negociações relatam que a troca de acusações entre iranianos e emiradenses vem bloqueando o avanço das discussões nas reuniões de xerpas. Caso a declaração final seja aprovada, a expectativa apresentada na análise é que o documento tenha formulação genérica e evite temas controversos tratados na declaração do Rio de Janeiro, no ano anterior.

A origem do impasse

A ampliação do Brics em 2023 é frequentemente apontada como causa da crise, mas Mielniczuk contesta essa interpretação. Para ele, o problema está na maneira como os membros antigos e os recém-admitidos passaram a administrar suas alianças fora do bloco.

Os cinco integrantes originais construíram a coesão do grupo em torno de dois eixos: a defesa da multipolaridade e a busca do desenvolvimento. China e Rússia deram maior ênfase à multipolaridade, enquanto Brasil, África do Sul e Índia priorizaram a diversificação de parcerias para promover o desenvolvimento. Como esses três países também mantêm relações com nações ocidentais, o Brics costuma ser descrito como um agrupamento não ocidental, e não antiocidental.

A análise sustenta que, até recentemente, essas parcerias externas eram flexíveis e não ameaçavam os fundamentos do bloco. O Brasil, por exemplo, poderia reafirmar sua participação no Brics em 2012 e, simultaneamente, ampliar os vínculos bilaterais com os Estados Unidos.

O cenário teria mudado com a transformação das alianças mantidas por alguns integrantes. No caso dos EAU, o país foi o primeiro Estado do Golfo a assinar os Acordos de Abraão, sob supervisão dos Estados Unidos, em 2020. O processo aproximou os Emirados de Israel e se inseriu na estratégia americana de isolamento político e militar do Irã.

Os Estados Unidos autorizaram a venda de caças F-35 aos Emirados, mas a operação foi posteriormente congelada por exigências relacionadas a salvaguardas tecnológicas e à desconfiança americana sobre os laços militares entre os EAU e a China. Ainda assim, durante o conflito recente, Israel reforçou sua cooperação com os Emirados. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enviou militares para operar uma bateria antiaérea Iron Dome no país, segundo a análise.

A cooperação entre EAU e Israel, somada a retaliações militares encobertas dos Emirados contra o Irã, teria elevado o risco de escalada e contribuído diretamente para o impasse político dentro do Brics. O comércio bilateral entre os Emirados e Israel ultrapassou 14 bilhões de dólares em 2026.

Os limites do multialinhamento indiano

A Índia ocupa a presidência do Brics em 2026 e, por isso, está no centro da tentativa de desativar a disputa. Mielniczuk avalia, porém, que a política externa de multialinhamento de Nova Délhi chegou a limites estruturais.

A Índia mantém há anos cooperação nuclear civil com os Estados Unidos e participação no Quad, iniciativas voltadas também à administração de suas disputas regionais com Paquistão e China. Ao mesmo tempo, preservou relações com países da chamada Maioria Mundial e utiliza o Brics como canal para obter resultados concretos em um ambiente no qual as instituições multilaterais tradicionais estão paralisadas.

A análise identifica uma mudança nesse equilíbrio. Em 2023, a criação do Corredor Econômico Índia–Oriente Médio–Europa (IMEC), anunciada durante a presidência indiana do G20 e financiada pelo G7, aproximou Índia, EAU e Israel em uma iniciativa estratégica comum. No início de 2026, a Índia aderiu à Pax Silica, liderada pelos Estados Unidos para organizar cadeias de suprimento de minerais críticos e semicondutores. Emirados e Israel também participam do projeto.

Essa convergência foi formalizada em Nova Délhi, em maio de 2026, com a adoção do Quad Critical Minerals Initiative Framework. O acordo prevê a mobilização de 20 bilhões de dólares para empreendimentos conjuntos e organiza cadeias de matérias-primas usadas na fabricação de semicondutores e sistemas de inteligência artificial.

Na avaliação apresentada, a sobreposição dessas iniciativas consolidou um eixo entre Índia, EAU e Israel. O alinhamento também ajuda a explicar o apoio indiano à entrada dos Emirados no Brics em 2023 e a visita de Narendra Modi a Benjamin Netanyahu, em fevereiro de 2026, dois dias antes do início das hostilidades contra o Irã.

Uma saída dentro do próprio bloco

A proposta defendida é que Índia e EAU reforcem seu compromisso com o Brics para recuperar margem de manobra e equilibrar suas relações com o Ocidente. O bloco poderia oferecer à Índia uma plataforma para tratar de suas preocupações sobre a projeção regional da China por meio da Iniciativa Cinturão e Rota. Para os Emirados, a influência diplomática de China e Rússia poderia ajudar a reduzir as tensões com o Irã.

A cooperação também poderia avançar em áreas hoje consideradas mais atrativas nas parcerias ocidentais. Os países do Brics detêm 85% das terras raras do mundo, segundo a análise. Uma iniciativa conjunta poderia reunir capital chinês e emiradense para desenvolver e processar esses materiais localmente, sem regimes de exclusividade associados às propostas americanas mencionadas.

A expectativa é que projetos desse tipo produzam ganhos econômicos, ampliem a cooperação tecnológica e fortaleçam a confiança entre os membros. Por esse caminho, o gradualismo e a paciência são apresentados como estratégias para atravessar a crise e preservar a capacidade de ação do grupo.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Assine nossa newsletterAs principais notícias do dia no seu e-mail.