NOVA DÉLHI — A 18ª Cúpula do Brics, realizada nos dias 12 e 13 de setembro de 2026, concentrou suas discussões financeiras na integração de sistemas nacionais de pagamentos rápidos e na redução da dependência do dólar. O encontro ocorreu em Nova Délhi, na Índia.
A proposta apresentada no encontro abandona a ideia de criar uma moeda física única para o bloco e prioriza uma conexão tecnológica entre plataformas já existentes. Nesse modelo, o Pix brasileiro poderia operar de forma integrada ao UPI indiano, ao sistema de pagamentos da Rússia e ao e-CNY chinês.
Pagamentos e moedas digitais
O chamado Brics Pay avançou com a perspectiva de estabelecer um cronograma oficial de implementação. A estrutura funcionaria como uma ponte entre os sistemas domésticos, permitindo conversões diretas entre moedas locais e liquidação das transações em segundos, sem a necessidade de uma conversão intermediária para o dólar.
A discussão também incluiu a conexão entre moedas digitais de bancos centrais. O Brasil desenvolve o Drex, a Índia testa a Rupia Digital e a China utiliza o e-CNY. A integração desses sistemas, por meio de uma ponte digital, poderia ser aplicada a contratos de comércio internacional envolvendo petróleo, grãos e outras commodities.
A proposta enfrenta dificuldades técnicas e políticas. Os países precisam estabelecer padrões comuns de liquidação sem abrir mão de sua soberania monetária. Também há cautela da Índia em relação à abertura direta de seus sistemas à infraestrutura chinesa, em razão de questões de segurança nacional.
A integração poderia reduzir custos de intermediação estimados entre 3% a 5% no comércio. A plataforma, porém, ainda teria de evoluir para atender operações de grande escala. Para substituir o dólar em transações de commodities, seria necessário um sistema de liquidação interbancária, além da estrutura voltada ao varejo.
Reservas, financiamento e pressão internacional
As discussões do Brics ocorreram em meio a preocupações sobre o bloqueio de reservas e a dependência de infraestruturas financeiras controladas por países ocidentais. O congelamento de mais de 300 bilhões de dólares em reservas russas, em 2022, é apresentado como um dos fatores que levaram países em desenvolvimento a discutir formas de proteger seus ativos e ampliar o uso de moedas locais.
Nesse contexto, o texto menciona o aumento da procura por ouro e o repatriamento de reservas mantidas no exterior. No Brasil, o Banco Central teria comprado 43 toneladas de ouro, elevando o estoque nacional em 33%, para mais de 172 toneladas. As reservas internacionais brasileiras são estimadas entre 360 bilhões e 378 bilhões de dólares.
O Novo Banco de Desenvolvimento, presidido por Dilma Rousseff, também atua no financiamento em moedas locais. Em abril de 2026, a instituição realizou uma emissão em renminbi no mercado interbancário chinês. O banco prepara ainda uma emissão de títulos em rupia indiana no valor de US$ 2,5 bilhões e empréstimos soberanos em moeda local de US$ 5 bilhões. A meta é que 30% de seu portfólio seja financiado em moedas locais até o final de 2026.
Relação com os Estados Unidos
A integração dos sistemas de pagamento pode reduzir a exposição dos países do Brics à rede SWIFT e às operações intermediadas pelo dólar. O plano, contudo, enfrenta pressão política dos Estados Unidos. Donald Trump ameaçou impor tarifas de 100% a países do bloco que criem ou apoiem alternativas ao dólar.
A proposta indiana também inclui pedidos de atualização da estrutura do Conselho de Segurança da ONU e de reformas no Fundo Monetário Internacional e na Organização Mundial do Comércio, com o objetivo declarado de ampliar a representação das economias emergentes.
A conexão entre Pix, UPI, SPFS e CIPS ainda depende de compatibilidade técnica e de decisões políticas entre os países. O Brics Pay pode funcionar como uma infraestrutura de pagamentos em moedas locais sem a criação de uma moeda comum, mas sua implementação exigirá acordos sobre padrões, segurança e autonomia dos sistemas nacionais.



