A conexão entre moedas digitais de bancos centrais e sistemas nacionais de pagamento dos países do Brics pode se tornar o caminho mais imediato para reduzir a dependência do Swift, a rede de mensagens que interliga bancos no mundo. A avaliação é do economista russo Yaroslav Lissovolik, que vê a Índia conduzindo as discussões sobre interoperabilidade, apesar da resistência histórica do país à criação de alternativas ao sistema do dólar.
Lissovolik afirma que o tema avançou nas semanas anteriores à cúpula de Nova Délhi e que houve reuniões entre bancos centrais e especialistas. Para ele, a proposta não corresponde ainda à criação de uma moeda comum, mas pode estabelecer uma infraestrutura para pagamentos e transações entre os integrantes do bloco.
Consenso é apontado como obstáculo
O economista considera que o Brics tem avançado lentamente na implementação de propostas financeiras discutidas pelo grupo. Na avaliação dele, o consenso, que durante muito tempo funcionou como uma força de integração, passou a dificultar decisões e projetos conjuntos.
Como alternativa, Lissovolik defende um modelo plurilateral. Nesse formato, três, quatro ou cinco países poderiam iniciar um projeto sem esperar a adesão imediata de todos os demais. Os outros integrantes acompanhariam o processo caso houvesse interesse.
A mesma lógica, segundo ele, ajudaria a desenvolver sistemas de pagamento, instrumentos financeiros e mecanismos para ampliar o uso das moedas nacionais. O economista afirma que o Brics precisa oferecer estruturas acessíveis e compreensíveis para investidores, bancos centrais e investidores institucionais.
A discussão ganhou importância com a redução da participação do dólar nas reservas mundiais. O economista observa, porém, que a maior parte do espaço perdido pela moeda estadunidense foi ocupada por economias desenvolvidas, e não pelo Sul Global. Para que os países do Brics recebam uma parcela maior desse movimento, seria necessário ampliar a infraestrutura financeira e discutir a coordenação dos controles de capital.
Lissovolik cita controles rigorosos na Índia e na Rússia, enquanto descreve o Brasil como um país sem controles de capital. Na visão dele, o tema precisa fazer parte da agenda de coordenação macroeconômica do bloco. Os controles poderiam ser reduzidos gradualmente, evitando movimentos excessivamente voláteis de saída de recursos e tornando os instrumentos financeiros do Sul Global mais visíveis no sistema internacional.
Índia pode priorizar sistemas próprios
A Índia ocupa posição central nesse debate por já contar com uma interface unificada de pagamentos, a UPI, descrita pelo economista como o “Pix indiano”. Ele avalia que o país não pretende abrir mão dos benefícios desse sistema e que a infraestrutura indiana pode integrar uma rede financeira mais ampla do Sul Global.
Embora o chanceler Jaishankar tenha indicado que a Índia não tem interesse na chamada desdolarização, Lissovolik acredita que as exigências econômicas do país devem favorecer, gradualmente, a diversificação das moedas e o uso de moedas nacionais. Para ele, o debate indiano mudou nos últimos anos, e a interoperabilidade pode avançar sem ser apresentada como um projeto de moeda comum.
O economista defende que a concorrência entre moedas e sistemas de pagamento seja o princípio orientador. Nesse cenário, diferentes plataformas poderiam disputar espaço no comércio internacional, em vez de depender de uma única rede ou moeda.
Bolsa de grãos depende de instrumentos financeiros
Outra proposta discutida pelo Brics é a criação de uma bolsa de grãos apresentada pela Rússia. Lissovolik considera a iniciativa relevante, mas afirma que ela não resolveria sozinha o problema da dependência do dólar no comércio de commodities agrícolas e de energia.
Para funcionar, a bolsa precisaria contar com contratos futuros, derivativos e instrumentos de proteção contra variações bruscas nos preços. Também seria necessário estabelecer um preço de referência aceito pelo mercado. Sem esses mecanismos, a força das práticas comerciais já consolidadas continuaria prevalecendo.
O economista avalia que a intensidade do comércio entre os países do Sul Global é igualmente importante. Quanto maior o fluxo comercial entre essas economias, maior seria a possibilidade de que as transações fossem denominadas em moedas nacionais. A institucionalização de uma nova bolsa, portanto, teria de ocorrer ao mesmo tempo que o fortalecimento das relações comerciais.
Moeda comum pode começar como unidade de conta
Lissovolik foi responsável, em 2017, por uma proposta chamada R5, voltada ao uso das moedas nacionais em operações do Novo Banco de Desenvolvimento e de bancos regionais. A ideia posteriormente passou a considerar uma cesta de moedas dos países do Brics, em modelo semelhante aos Direitos Especiais de Saque do FMI.
Alexei Mozhin e Paulo Nogueira Batista Jr. participaram do desenvolvimento posterior da proposta. A formulação mais recente prevê que o projeto poderia começar como uma unidade de conta ou uma moeda digital, sem a necessidade de criar imediatamente uma moeda física.
O economista afirma que a interoperabilidade entre moedas digitais de bancos centrais é, neste momento, uma possibilidade mais plausível. A conexão entre os sistemas permitiria reduzir custos nas transações e poderia abrir espaço para etapas futuras, inclusive uma eventual moeda comum.
A discussão sobre alternativas financeiras foi atribuída aos ministros da Fazenda e aos presidentes dos bancos centrais na cúpula de Joanesburgo, em 2023. A Rússia apresentou um relatório com propostas em 2024, mas, segundo Lissovolik, a implementação não avançou desde então.
Para ele, o Brics precisaria combinar o consenso sobre valores fundamentais com regras que permitissem acordos entre grupos menores de países. Sem essa flexibilidade, projetos como a interoperabilidade das moedas digitais e a bolsa de grãos podem continuar dependendo de uma decisão unânime do bloco.



