O voto deve ser tratado como uma decisão de responsabilidade coletiva, e não apenas como uma demonstração de simpatia. Essa é a tese central defendida por Alexandre Varela, membro do Conselho Curador da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, em artigo de opinião sobre a eleição e os rumos da democracia brasileira.
O autor afirma que o país atravessou, nos últimos anos, um processo de retrocesso em áreas como saúde, proteção social, fiscalização ambiental e sanitária e preservação das instituições. Na avaliação apresentada, episódios como o descaso diante de uma crise sanitária, os ataques ao Judiciário, à imprensa, às urnas eletrônicas e aos órgãos de fiscalização não devem ser analisados de forma isolada. Juntos, formariam um padrão de enfraquecimento do Estado de Direito.
Instituições e políticas públicas
Na área ambiental e na proteção dos povos indígenas, o artigo cita a redução do orçamento e do quadro de pessoal do Ibama, que teria chegado ao menor número de fiscais de sua história. Também menciona mudanças nas regras de proteção do Ibama, do ICMBio e da Funai, associadas ao crescimento do desmatamento na Amazônia pela falta de controle e pelo incentivo implícito a atividades ilegais.
A fiscalização trabalhista e sanitária também é apresentada como exemplo. Um decreto de 2020 passou a permitir que profissionais temporários ou autônomos substituíssem auditores fiscais concursados na inspeção de frigoríficos. Ao mesmo tempo, o Ministério do Trabalho sofreu reduções estruturais, diminuindo o alcance das inspeções trabalhistas.
O texto ainda aponta perda de força nos mecanismos de combate à corrupção, nos órgãos de investigação e na transparência pública. Na política fundiária, o esvaziamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) teria interrompido processos de demarcação de territórios quilombolas e terras indígenas, além de suspender novas vistorias para assentamentos de reforma agrária.
Para Varela, a escolha eleitoral precisa considerar a diferença entre divergências que permanecem dentro do regime democrático e ações que ameaçam o próprio funcionamento desse regime. Ele sustenta que a desinformação em massa, o uso do ódio como instrumento de mobilização e o desprezo pela vida pública são escolhas políticas que podem ser interrompidas por outra decisão nas urnas.
O argumento não é apresentado como defesa de uma adesão sem críticas ao projeto liderado pelo presidente Lula. O autor afirma que divergências programáticas e críticas ao governo continuam legítimas, mas considera necessário um compromisso mínimo com a civilidade, as instituições, a verdade dos fatos e a vida humana. A proposta é reunir forças democráticas mesmo quando elas não concordam em todos os temas.
Indicadores econômicos
O artigo também registra resultados atribuídos ao terceiro mandato de Lula. O Produto Interno Bruto (PIB), que teria encerrado o último ano do governo Bolsonaro em 2,9%, cresceu 2,9% em 2023 e 3,4% em 2024, com expansão sustentada em 2025 e 2026. A análise relaciona esse desempenho ao mercado de trabalho aquecido, à retomada do consumo das famílias e aos reajustes reais do salário-mínimo.
O desemprego, cuja média geral no governo Bolsonaro é indicada como 12,2%, teria recuado para uma faixa de 6,4% no governo Lula 3. A inflação medida pelo IPCA também teria diminuído, passando de uma média anual de 6,17% no governo Bolsonaro para cerca de 4,73% no governo Lula 3.
A comparação entre os governos é estendida à indústria automobilística. O período Bolsonaro é associado ao encerramento de atividades da Ford, ao fechamento de plantas da Mercedes-Benz e a paralisações da Audi, com retração acumulada da produção e baixo nível de emprego no setor.
Já no governo Lula 3, o artigo relaciona a retomada a políticas de transição energética e descarbonização, como o programa Mover. As montadoras teriam anunciado investimentos privados de R$ 130 bilhões até 2030, voltados principalmente à fabricação nacional de veículos híbridos e elétricos.
Dados revisados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) são usados para sustentar essa avaliação. A previsão de vendas internas chega a 3,014 milhões de unidades emplacadas, com crescimento acumulado entre 12,1% e 18,4%. Até agosto, a produção nacional alcançou 1,898 milhão de unidades, alta de 8,5%. Em agosto, foram fabricados 271,1 mil veículos, o maior resultado mensal desde outubro de 2019.
O texto também menciona o programa Move Brasil, consolidado pela Lei nº 15.503/2026. A iniciativa, voltada a motoristas e entregadores de aplicativo, taxistas e profissionais de transporte escolar, teria ultrapassado 67 mil unidades financiadas, entre mais de 48 mil carros e 19 mil motocicletas.
Apesar do reconhecimento desses dados, Varela afirma que a preservação das condições para resolver conflitos pelo voto deve estar acima de preferências pessoais e de qualquer balanço de indicadores. A defesa da democracia, segundo o autor, não exige aprovação do governo, mas o reconhecimento de que, sem as instituições democráticas, nenhuma escolha política continuará disponível.



