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Educação pública expõe projetos opostos para o trabalho e a sociedade

Análise de Grazielle Weiss compara propostas de Lula e Flávio Bolsonaro para a educação na eleição de 2026.

Educação pública expõe projetos opostos para o trabalho e a sociedade

A educação pública aparece como um dos principais campos de disputa entre os projetos apresentados por Lula e Flávio Bolsonaro para a eleição de 2026. A avaliação é de Grazielle Weiss, doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Paraná e pedagoga da Rede Estadual de Ensino do Paraná. Para ela, as propostas não expressam apenas modelos distintos de gestão escolar, mas concepções diferentes sobre trabalho, conhecimento e sociedade.

A autora sustenta que a escola não é um espaço neutro. Quando estudantes deixam as aulas para trabalhar e professores passam a ser cobrados por metas de desempenho, estaria em jogo a definição de quem terá acesso ao conhecimento histórico e crítico e de quem será preparado para ocupar posições precárias no mercado de trabalho.

Meritocracia e controle do trabalho docente

Na leitura de Weiss, o programa de Flávio Bolsonaro associa educação, emprego e esporte sob a promessa de ascensão pelo esforço individual. O plano atribui o fracasso escolar à falta de método e à presença de uma suposta ideologia, ao mesmo tempo que propõe a cobrança de resultados.

Entre as medidas citadas estão a prioridade ao método fônico, a gestão baseada em indicadores, a vinculação de repasses orçamentários a metas e o Programa Acolher, que remunera estudantes com bom desempenho para auxiliar colegas. Para a autora, esse conjunto introduz uma lógica de competição no cotidiano escolar e desloca para indivíduos e escolas a responsabilidade por desigualdades estruturais.

A análise também relaciona a plataformização da educação ao aumento do controle sobre os professores. Aplicativos de frequência, plataformas digitais e sistemas automatizados de correção, desenvolvidos por empresas privadas, transformariam práticas pedagógicas em dados e ampliariam a presença corporativa dentro da escola pública.

O programa de Flávio Bolsonaro também é associado à defesa de uma escola sem doutrinação e à expansão das escolas cívico-militares. Weiss interpreta a ideia de neutralidade como uma forma de restringir debates sobre classe, gênero, raça e desigualdade. Na mesma perspectiva, o modelo cívico-militar substituiria a gestão democrática por uma disciplina orientada pela hierarquia e pela obediência.

Inclusão e limites do programa de Lula

O programa de Lula, por sua vez, apresenta a educação como direito social e instrumento de redução das desigualdades. Entre as propostas estão a continuidade da alfabetização na idade certa, a expansão de creches, a universalização do tempo integral e a consolidação do Pé-de-Meia para reduzir a evasão no ensino médio.

O documento também prevê assistência estudantil, expansão dos Institutos Federais e manutenção do Piso Nacional do Magistério. Inclui políticas voltadas à educação indígena, quilombola, inclusiva e bilíngue de surdos, além do fortalecimento das relações étnico-raciais.

Para Weiss, essas medidas ampliam a presença de grupos historicamente marginalizados e preservam um horizonte mais democrático. A autora, porém, afirma que políticas de apoio imediato, como o Pé-de-Meia, não alteram sozinhas as estruturas de exploração. Também critica a ausência de um compromisso explícito com a revogação radical dos elementos da Reforma do Ensino Médio.

Na avaliação apresentada, a permanência de itinerários flexibilizados aproximaria a formação escolar de um mercado de trabalho informal e precarizado. A substituição de conteúdos científicos, históricos e filosóficos por disciplinas associadas a empreendedorismo e projeto de vida seria, nesse entendimento, uma forma de preparar a juventude para conviver com a falta de direitos.

A autora ainda aponta que a manutenção do Piso Salarial não resolveria, isoladamente, as jornadas extensas e o adoecimento dos professores. Também identifica lacunas em políticas de permanência para jovens que enfrentam a divisão desigual do trabalho doméstico e do cuidado.

Ensino técnico, pesquisa e mercado

Os dois programas tratam da formação profissional e da pesquisa científica, mas a partir de relações diferentes com o setor produtivo. Flávio Bolsonaro propõe ampliar o ensino técnico com participação empresarial, bolsas privadas e vouchers para creches. O plano também prevê transferir a governança do ensino superior para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e subordinar CAPES e CNPq a critérios de impacto produtivo e transferência tecnológica.

Weiss relaciona essas medidas à mercantilização da educação e à ideia de que a formação deve funcionar como investimento em capital humano. Ela afirma que vouchers, financiamento por resultados e orientação da pesquisa pelas demandas de mercado podem direcionar recursos públicos para grupos privados de educação, citando Cogna e Yduqs.

O programa de Lula também aproxima os Institutos Federais e a pesquisa científica das necessidades da indústria e da produtividade. Embora a autora reconheça a expansão da rede pública e a perspectiva de desenvolvimento nacional, alerta que a prioridade ao retorno econômico imediato pode reduzir o espaço das ciências humanas, das artes e da filosofia.

Participação social e poder popular

A análise considera que o programa de Lula se diferencia por defender financiamento público, fortalecimento da rede federal, valorização do magistério e participação social. Ainda assim, Weiss afirma que faltam detalhes sobre conselhos paritários com poder deliberativo, grêmios estudantis autônomos e decisões efetivamente comunitárias nas escolas.

A autora distingue a participação destinada apenas a cumprir metas previamente definidas daquela que permite à comunidade escolar decidir os rumos da instituição. Para sustentar a possibilidade de transformação a partir da escola, menciona as ocupações secundaristas de 2015-2016, as greves nacionais da educação e experiências pedagógicas do MST em áreas de reforma agrária.

A conclusão apresentada é que os programas expressam projetos de classe distintos. O de Flávio Bolsonaro é descrito como associado à vigilância, à hierarquia, à competição e à mercantilização. O de Lula é considerado mais favorável à defesa da escola pública, à diversidade e às liberdades democráticas, embora limitado por compromissos conciliatórios.

Para Grazielle Weiss, a vitória do campo progressista garantiria condições institucionais para a organização e a defesa de direitos, mas não encerraria a disputa sobre o sentido da educação. A transformação dependeria também da ação coletiva de professores, estudantes e trabalhadores.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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