As enchentes de maio de 2024 afetaram direta ou indiretamente 92,7% dos domicílios da Região Intermediária de Porto Alegre, segundo dados da Pesquisa Especial sobre as Enchentes (PEERS/IBGE) sistematizados pelo Observatório Unilasalle. O levantamento considera 1,38 milhão de residências, das quais 1.280.502 foram atingidas de alguma forma.
O impacto alcançou serviços essenciais e a infraestrutura urbana. Mais de um milhão de lares ficaram sem água potável ou energia elétrica, enquanto as redes de comunicação foram interrompidas e o transporte público deixou de funcionar normalmente. Os dados indicam que a enchente não se limitou à invasão de imóveis, mas afetou as condições de funcionamento das cidades e o acesso da população a serviços básicos.
Deslocamento, moradia e assistência
A pesquisa registra que pelo menos 538 mil famílias deixaram suas casas por ao menos uma noite para escapar da elevação das águas. Durante a crise, mais de 610 mil pessoas mudaram de endereço. Ao mesmo tempo, mais de 221 mil moradias precisaram de reconstrução urgente ou reassentamento porque foram destruídas ou sofreram danos severos.
A assistência financeira emergencial alcançou 362 mil domicílios. A diferença entre o número de moradias que necessitavam de intervenção e o de casas que receberam auxílio é apontada pelos autores como uma lacuna na proteção social durante o período mais crítico.
O efeito sobre a renda também foi expressivo. Quase 1,5 milhão de moradores disseram que a renda familiar passou a ter muito menos capacidade de cobrir as despesas básicas mensais. Entre os fatores associados pelos pesquisadores estão a elevação do custo de vida, a interrupção do trabalho informal e a necessidade de repor bens essenciais perdidos na enchente.
Grupos mais atingidos e resposta pública
A população afetada no recorte analisado supera 3,7 milhões de pessoas. As mulheres formam a maior parcela, com 1,94 milhão de atingidas. Crianças e adolescentes somam 733 mil, enquanto 712 mil idosos também vivenciaram a perda de moradias, rotinas e referências de segurança.
Os pesquisadores Moisés Waismann, Rute Henrique da Silva Ferreira, Lucimar Fátima Siqueira e Paula Pinhal de Carlos afirmam que a distribuição dos impactos não foi uniforme. Na avaliação apresentada por eles, as diferenças de classe, cor e gênero influenciaram a exposição ao desastre e a capacidade de resposta das famílias.
O levantamento também aponta efeitos psicológicos relacionados ao resgate, ao receio de novas chuvas e à incerteza sobre o futuro. Mais de 2,1 milhões de moradores declararam não conhecer medidas preventivas adotadas pelo Estado para evitar novas tragédias. A maioria reprovou as obras de recuperação realizadas nas áreas atingidas.
Para os autores, os dados indicam problemas de governança, planejamento urbano e proteção social. Eles defendem que a reconstrução do Rio Grande do Sul priorize moradia, saúde mental, saneamento e informação transparente, evitando a repetição de estruturas em áreas de risco e tratando a adaptação climática como uma política permanente de Estado.


