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Fim das bets pode redirecionar renda e reduzir novos danos à saúde

Medida prevê bloquear plataformas a partir de outubro, mas especialistas dizem que dívidas e casos de dependência continuarão exigindo políticas públicas.

Fim das bets pode redirecionar renda e reduzir novos danos à saúde

A interrupção das plataformas de apostas online pode impedir que parte da renda das famílias continue sendo direcionada às bets e favorecer o consumo, o comércio e o pagamento de dívidas. Os efeitos, porém, não seriam iguais em todas as áreas: na economia, a mudança pode alterar de imediato a circulação de recursos; na saúde, a redução da procura por atendimento tende a ocorrer mais lentamente.

A medida provisória prevê a desativação das plataformas, a devolução dos valores mantidos pelos usuários e o bloqueio de sites e aplicativos a partir de outubro. Para o economista Weslley Cantelmo, a interrupção desse fluxo de dinheiro pode beneficiar principalmente as famílias de menor renda, que destinam mais de 90% dos rendimentos ao consumo.

Renda, consumo e inadimplência

O dinheiro que deixar de ser gasto em apostas poderá ser usado em alimentação, compras, serviços e, eventualmente, no pagamento de dívidas. A lógica apresentada por Cantelmo é que a renda aplicada em estabelecimentos comerciais remunera trabalhadores e fornecedores, além de movimentar outras atividades e gerar arrecadação pública.

Uma estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) relaciona as apostas à retirada de cerca de R$ 143 bilhões do comércio varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026. A entidade calcula também que aproximadamente 270 mil famílias podem ter alcançado uma situação de inadimplência severa associada aos gastos com as plataformas.

Em 2024, outro levantamento da CNC apontou que os brasileiros movimentaram cerca de R$ 240 bilhões em bets. No mesmo período analisado, o varejo teria deixado de faturar R$ 103 bilhões em razão da transferência de renda das famílias para as plataformas.

A CNC também estimou que os gastos com apostas chegaram a superar R$ 30 bilhões mensais. Esses dados indicam que o encerramento das plataformas pode interromper uma saída contínua de recursos, mas não representa, por si só, a recuperação automática do dinheiro já perdido nem a eliminação das dívidas acumuladas.

“Aquelas famílias de mais baixa renda direcionam um percentual superior a 90% de seus rendimentos para o consumo”, afirma Cantelmo. O impacto dependerá de quanto desse dinheiro voltará efetivamente ao mercado formal e de como cada família reorganizará o orçamento.

Pressão sobre o SUS

Na saúde, a mudança pode reduzir progressivamente o surgimento de novos casos de dependência, mas não deve diminuir de imediato a demanda por atendimento. Aline Cristina, enfermeira do Sistema Único de Saúde (SUS) e sindicalista do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Belo Horizonte (Sindibel), afirma que pessoas já diagnosticadas podem precisar de acompanhamento psicológico e psiquiátrico prolongado, com uso de medicamentos e ajustes no tratamento em situações de recaída.

Os efeitos da dependência também atingem familiares dos jogadores. O endividamento e as consequências emocionais podem exigir ações coordenadas entre o SUS e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS).

Estimativa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) calcula em pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano os custos sociais e econômicos relacionados aos danos à saúde associados às apostas. O cálculo inclui impactos ligados à depressão, suicídios, perda de qualidade de vida e tratamentos.

Nos últimos cinco anos, a procura por atendimento no SUS relacionada à dependência de apostas e jogos de azar cresceu 140%, conforme dados do Ministério da Saúde. Os usuários podem chegar à atenção básica com insônia, alterações no apetite, ansiedade, estresse, dores de cabeça e palpitações sem associar esses sintomas ao jogo. Em situações mais graves, os casos podem envolver tentativas de suicídio e atendimento em unidades de urgência.

Diante do aumento da procura, o Ministério da Saúde ampliou a capacidade de teleatendimento relacionado a jogos e apostas. A estrutura passou de 600 para até 100 mil atendimentos mensais.

Tratamento e fiscalização

O financiamento da resposta pública é outro ponto de preocupação. Segundo o IEPS, apenas 1% da arrecadação das operadoras era destinado ao Ministério da Saúde para enfrentar os danos relacionados ao setor. Para Aline, esse repasse é desproporcional aos custos provocados pelo adoecimento associado às apostas.

O fim das bets não encerra os problemas já acumulados. Pessoas que desenvolveram dependência continuarão podendo precisar de tratamento, enquanto as famílias afetadas pelo endividamento também podem demandar assistência. Na economia, a recuperação dependerá de outras políticas, incluindo a nova fase do programa federal Desenrola 3.0, lançado em conjunto com a proibição das bets.

Também permanece o risco de migração de apostadores para plataformas ilegais. Uma estimativa da consultoria H2 Gambling Capital, divulgada após a medida provisória, calcula que parte significativa do mercado poderia migrar para sites não autorizados.

Assim, os resultados de longo prazo dependerão da fiscalização das plataformas clandestinas, da prevenção e da manutenção do atendimento a quem já desenvolveu dependência. Para Cantelmo, a interrupção do fluxo de recursos para as apostas produz efeitos econômicos imediatos, mas a extensão desses efeitos dependerá da forma como o dinheiro será redistribuído pelas famílias e pelo mercado.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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