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IA reorganiza profissões e intensifica disputa pelos ganhos de produtividade

A tecnologia acelera tarefas e altera ocupações, mas a divisão dos benefícios depende de negociação, proteção social e controle dos trabalhadores.

IA reorganiza profissões e intensifica disputa pelos ganhos de produtividade

A inteligência artificial já altera rotinas profissionais, modifica funções e amplia a pressão por produtividade. Embora as previsões sobre um possível risco de extinção da humanidade permaneçam no campo da especulação, os efeitos da tecnologia sobre o trabalho são concretos: prazos mais curtos, novas formas de controle, mudanças nas atribuições e ameaça a postos de trabalho.

O debate central não se limita à capacidade técnica dos sistemas. Ele envolve a disputa sobre quem controlará e receberá a riqueza gerada pelo aumento da produtividade. Os ganhos podem ser apropriados por empresas de tecnologia e empregadores ou convertidos em redução da jornada, melhores salários, preservação de empregos e condições menos desgastantes.

Funções alteradas e cobrança maior

Maria, nome fictício de uma trabalhadora de uma empresa de tecnologia, relata que essa transformação já chegou ao cotidiano profissional. Ela não foi identificada porque está submetida a um contrato de confidencialidade. Antes responsável pela redação e pela comunicação em produtos digitais, Maria trabalhava como UX Writer. Com a adoção de ferramentas de IA, passou a atuar como Product Designer, função voltada à experiência visual.

A mudança, segundo ela, veio acompanhada de novas exigências e de maior insegurança. “A IA não só agilizou entregas e trouxe uma pressão por mais produtividade, mas também impôs novos métodos e necessidades”, relata.

Maria afirma que a equipe passou a produzir entregas mais uniformes diretamente em HTML, com apoio da IA, deixando de lado um aplicativo de design usado anteriormente. Ela também percebe um movimento de redução gradual do quadro de profissionais. O que antes era apresentado como um ambiente saudável de trabalho, diz, passou a ser marcado por cobrança intensa.

Taiguara Castro, diretor de arte, descreve fenômeno semelhante na produção de conteúdo visual. Tornou-se mais difícil justificar investimentos em fotografias e vídeos próprios, enquanto cresceram os pedidos por imagens complexas acompanhados da expectativa de que tudo seja criado rapidamente a partir de um comando.

Essa mudança afeta profissionais que participam de diferentes etapas da produção, como fotógrafos, cinegrafistas, produtores e modelos. Para Castro, a valorização da ferramenta pode ocultar a complexidade do trabalho humano envolvido na criação. A expectativa de que qualquer resultado seja obtido em pouco tempo também reduz a percepção sobre limites de orçamento, prazo e execução.

O tempo economizado pela automação, na avaliação do diretor de arte, não tem se convertido em descanso ou em jornadas menores. Ele é absorvido pela exigência de produzir mais. Os briefings ficaram mais objetivos, mas também mais frios e superficiais, enquanto textos, imagens e campanhas passaram a ser entregues com maior velocidade e, em alguns casos, com ideias genéricas e repetitivas.

A adoção de ferramentas capazes de criar layouts e campanhas completas pode mudar profundamente as atribuições da profissão e reduzir a quantidade de trabalho disponível. Castro também avalia que o ritmo imposto pelos sistemas entra em conflito com o tempo necessário para amadurecer uma ideia criativa.

O impacto sobre o primeiro emprego

A expansão da IA alcança funções que tradicionalmente servem de entrada para a vida profissional. Atividades administrativas, atendimento ao cliente, produção de conteúdo, análise de dados e tarefas repetitivas podem ser parcialmente automatizadas ou realizadas com auxílio desses sistemas.

A consequência possível é dupla: algumas vagas destinadas a iniciantes podem diminuir, enquanto aumenta a procura por pessoas capazes de operar, acompanhar e supervisionar as ferramentas. O problema, para quem está começando, é que as tarefas básicas também são um espaço de formação. Se elas forem eliminadas, pode ficar mais difícil adquirir experiência e desenvolver habilidades profissionais.

Thiago Palominio, estudante de Direito, viveu essa transição durante o estágio na Defensoria Pública do Rio Grande do Sul. Ao longo de dois anos, sua rotina incluía a elaboração de memoriais, recursos de apelação e a transcrição manual de audiências. Perto do encerramento do contrato, uma ferramenta passou a transcrever os depoimentos automaticamente e a sugerir teses e fundamentos para os recursos.

Palominio afirma que a mudança acelerou o fluxo de trabalho, eliminou pendências e tornou as atividades mais dinâmicas. Ao mesmo tempo, ele questiona se a tecnologia será usada para aliviar a carga dos trabalhadores ou para reduzir vagas de estágio e enxugar concursos públicos.

Para o estudante, a IA não deve ser tratada apenas como instrumento de redução de custos. Seu uso precisa considerar o bem público, o bem-estar coletivo e os efeitos sobre as oportunidades profissionais. Caso contrário, uma ferramenta capaz de ampliar a capacidade de trabalho pode contribuir para tornar funções humanas obsoletas.

Ocupações mais expostas

Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho indica que um em cada quatro empregos no mundo está em ocupações com algum nível de exposição à IA generativa. A avaliação apresentada é que a transformação das funções tende a ser mais provável do que a substituição integral dos trabalhadores.

Entre as áreas mais expostas estão atividades administrativas, como entrada de dados, digitação, contabilidade, escrituração e secretariado. A exposição também cresceu em segmentos muito digitalizados, incluindo finanças, desenvolvimento de programas e produção de conteúdo.

Na América Latina e no Caribe, um estudo da Organização Internacional do Trabalho e do Banco Mundial estima que entre 26% e 38% dos empregos possam ser afetados pela IA generativa. Entre 8% e 14% poderiam registrar ganhos de produtividade, enquanto de 2% a 5% estariam sujeitos à automação completa. A maior exposição aparece em setores urbanos, formais e com maior escolaridade.

Os efeitos variam entre grupos sociais. Atahualpa Blanchet, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e de um grupo de pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, cita um estudo da OIT segundo o qual 41% do emprego feminino está em ocupações expostas, contra 28% do masculino.

Raça, idade, escolaridade e renda também influenciam a distribuição dos impactos. No Brasil, trabalhadores em situação de pobreza têm menos condições de aproveitar os ganhos de produtividade proporcionados pela IA, o que pode aprofundar desigualdades já existentes.

Quando o sistema passa a organizar o trabalho

Blanchet identifica três movimentos principais. O primeiro é a substituição de parte da mão de obra pela automação. O segundo envolve a interação entre pessoas e algoritmos, inclusive na gestão. O terceiro é a plataformização, que leva aplicativos e plataformas digitais a organizar e controlar o trabalho.

Na chamada gestão algorítmica, sistemas podem estabelecer metas, distribuir tarefas, acompanhar a produtividade e participar de decisões sobre contratação, remuneração, promoção, punição ou demissão. O empregador costuma concentrar o conhecimento sobre o funcionamento dessas ferramentas, enquanto o trabalhador muitas vezes desconhece quais dados são coletados, como são processados e de que modo interferem em sua trajetória profissional.

A falta de transparência não é o único problema apontado. Os algoritmos também podem reproduzir ou ampliar discriminações já presentes na sociedade e no mercado de trabalho.

A disputa pela produtividade

O aumento da produtividade não produz automaticamente salários maiores, jornadas menores ou preservação dos empregos. Para Blanchet, a forma de distribuição dos benefícios depende da correlação de forças, da organização dos trabalhadores e da negociação coletiva.

Quando a mesma quantidade de trabalho pode ser realizada em menos tempo, a redução da jornada aparece como uma maneira de repartir os ganhos. Sem negociação, porém, a produtividade pode resultar em intensificação do ritmo, diminuição das equipes e aumento dos lucros empresariais.

Silvana Piroli, dirigente da Central Única dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul, defende que a incorporação da tecnologia seja acompanhada pela distribuição da riqueza gerada. Ela usa o setor bancário como exemplo de uma área em que o avanço tecnológico ocorreu junto com a redução do número de trabalhadores, mesmo diante de lucros elevados.

Na avaliação de Piroli, a resposta deve incluir qualificação profissional e alternativas para pessoas cujas funções sejam substituídas ou profundamente modificadas. A dirigente também defende investimentos públicos em pesquisa, universidades, formação profissional e desenvolvimento de ferramentas próprias, para reduzir a dependência de sistemas controlados no exterior.

Sindicatos buscam participar das decisões

A inteligência artificial começou a entrar nas negociações coletivas conduzidas por sindicatos. Entre as propostas em debate estão a obrigação de informar e consultar representantes dos trabalhadores antes da implantação de sistemas que alterem funções, metas ou avaliações.

Também são discutidos o direito de conhecer os critérios usados pelos algoritmos, a revisão humana das decisões, a proteção de dados pessoais, a restrição a decisões tomadas apenas por sistemas automatizados em situações sensíveis, a formação durante a jornada e mecanismos para evitar demissões.

Uma pesquisa apresentada por Blanchet, com participação de 17 centrais sindicais de 13 países das Américas, mostra que 44% delas já criaram estruturas ou grupos dedicados ao tema. Metade discute a transparência dos sistemas, mas somente 16,7% informou ter vivido experiências de acesso a informações ou de negociação coletiva relacionadas à IA.

No Brasil, algumas categorias tentam transformar essas propostas em cláusulas de acordos e convenções coletivas. O avanço, entretanto, ocorre em ritmos diferentes entre entidades e setores. Para Blanchet, os trabalhadores podem participar do desenvolvimento e do controle da tecnologia, inclusive por meio de cooperativas de plataforma e de projetos de desenho algorítmico justo.

Tecnologia vinculada a direitos

A Central Única dos Trabalhadores prepara atividades sobre inteligência artificial e trabalho em diversos estados. No Rio Grande do Sul, o debate deve ocorrer em novembro. A entidade busca levar a implantação dessas ferramentas para as negociações sindicais e cobrar garantias de emprego e de direitos.

A disputa, portanto, não se resume à escolha entre adotar ou rejeitar a IA. Ela envolve decidir quais tarefas serão automatizadas, quem terá acesso aos dados, como os sistemas serão fiscalizados e de que maneira os ganhos serão distribuídos. Também define se a redução do tempo necessário para executar uma atividade servirá para aumentar a pressão sobre os trabalhadores ou para melhorar suas condições de vida.

Para Piroli, a modernização deve ampliar direitos, e não eliminá-los ou aprofundar desigualdades. Castro considera que o público pode voltar a valorizar produções feitas por pessoas diante do excesso de imagens genéricas. Blanchet resume a questão na finalidade atribuída à tecnologia: seu valor depende de contribuir para o bem-estar e para melhores condições de vida dos trabalhadores.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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