A inteligência artificial não avança como uma força autônoma, separada das decisões humanas e das relações de poder. Seu desenvolvimento depende de estruturas que poucos atores conseguem reunir: centros de dados gigantescos, consumo elevadíssimo de energia, chips especializados caríssimos e equipes de pesquisa entre as mais bem pagas do mercado global. Essa exigência de capital coloca corporações privadas e Estados-nação no centro da disputa pelo domínio da tecnologia.
O tamanho dos investimentos, porém, ainda não assegura a hegemonia de nenhum participante. Garante, por enquanto, uma posição na corrida pelo mercado. A concentração decorre da própria estrutura de custos e da capacidade — ou da vontade política — de mobilizar recursos em escala semelhante.
Uma disputa com dimensões internacionais
A competição entre China e EUA envolve restrições à exportação de semicondutores, disputa por terras raras e políticas industriais bilionárias. Nesse processo, aparecem dois projetos diferentes para o desenvolvimento da inteligência artificial.
Em julho de 2026, Xi Jinping anunciou a criação da Organização Mundial de Cooperação em IA (WAICO), sediada em Xangai. A iniciativa inclui compromissos com o Sul Global, como vagas de formação, centros de cooperação com blocos como BRICS e União Africana e acesso a sistemas de alerta climático. “A IA não deve ser solo de um único país, mas uma sinfonia de cooperação internacional”, afirmou Xi Jinping.
A proposta abre uma possibilidade de cooperação Sul-Sul, historicamente negada pelos países centrais. A disputa, portanto, não se limita aos laboratórios ou às reuniões de governos. Ela alcança também o cotidiano de quem utiliza a ferramenta no trabalho, nos estudos e em perguntas básicas, muitas vezes sem perceber a lógica à qual as respostas podem servir.
Tecnologia, trabalho e apropriação
As transformações tecnológicas anteriores alteraram as relações das sociedades com a terra, o trabalho, a arte, a informação, os transportes, as comunicações e as fronteiras. Da Revolução Agrícola à escrita, da metalurgia à imprensa e às revoluções industriais, cada salto também reorganizou a relação entre quem produz e quem se apropria do que é produzido.
Quando a produção de excedentes alimentares se tornou possível, a tecnologia deixou de ser apenas um instrumento de sobrevivência e passou a ser usada também para dominação e acumulação. A partir da Revolução Industrial, essa dinâmica ganhou dimensões mais amplas. Nas fábricas, as máquinas elevaram a produtividade dos donos dos meios de produção, mas o resultado não foi a ampliação do tempo livre dos trabalhadores. O ganho se converteu em maior exploração e extração de mais-valia.
A máquina também afastou o trabalhador do próprio ofício. O conhecimento de quem executava a tarefa foi fragmentado e o trabalhador passou a depender de um processo que deveria estar sob seu controle. A inteligência artificial é apresentada, nesse sentido, como uma nova forma de uma lógica antiga: a tecnologia desenvolvida sob o comando do capital tende a atender aos interesses de quem controla o capital.
Cada decisão técnica — sobre o que priorizar ou ignorar — contém um viés social. Isso significa que outras escolhas são possíveis e que existem espaços para alternativas.
Entre o determinismo e o solucionismo
O uso cotidiano da inteligência artificial não elimina essa dimensão política. A ideia de que as redes sociais haviam democratizado a comunicação já foi submetida a críticas. O controle sobre o pensamento de parcelas expressivas da população por meio da manipulação de dados, sentimentos e algoritmos passou a ser usado na tentativa de influenciar eleições e rumos políticos. Nesse quadro, o campo da inteligência artificial não é neutro nem necessariamente democrático.
Duas interpretações devem ser recusadas. A primeira é o determinismo tecnológico, que trata o avanço da ferramenta como uma força dotada de lógica própria, sem decisões humanas capazes de orientá-la ou interrompê-la. A segunda é o solucionismo tecnológico, que atribui à inteligência artificial a capacidade de resolver sozinha problemas de natureza social e política.
Essas leituras deixam de lado as contradições materiais que atravessam a sociedade e dificultam a construção de alternativas baseadas na apropriação coletiva das ferramentas. Só existe inteligência artificial porque existe inteligência humana. As possibilidades de ação incluem o uso crítico da tecnologia, a testagem constante, a qualificação das capacidades humanas e a leitura política do mundo. A tecnologia, nessa perspectiva, não substitui a política.
Controle humano no jornalismo
No jornalismo, a adoção da inteligência artificial exige uma política de uso que preserve a responsabilidade editorial. Isso envolve atenção redobrada ao conteúdo publicado e controle humano rigoroso em todas as etapas do processo. A ferramenta pode ser usada para qualificar o trabalho, otimizar tempo e ampliar as capacidades dos trabalhadores no próprio ofício, em vez de afastá-los dele.
A aplicação cotidiana também requer treinamento, debate e análise permanente de cada uso. As consequências da adoção inadequada para o mundo do trabalho ainda não aparecem em toda a sua extensão. Sem atenção crítica, aumentam as distâncias entre quem controla a tecnologia e quem a utiliza, assim como entre a promessa e o resultado.
O desafio é evitar um uso cego e passivo de uma ferramenta poderosa. A inteligência artificial pede análise sobre a apropriação do conhecimento produzido pela humanidade e sobre sua conversão em lucro. As alternativas dependem de participação humana, debate e orientação política, não da aceitação da tecnologia como destino ou milagre.


