A imagem de Nossa Senhora Aparecida passou a ocupar o centro de uma disputa presidencial depois que circulou a informação de que Flávio Bolsonaro retiraria da santa o título de Padroeira do Brasil caso fosse eleito. O candidato negou a intenção e afirmou que a mensagem era falsa.
Em agosto de 2026, porém, Flávio Bolsonaro declarou que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A declaração ampliou a associação entre a campanha eleitoral e a religiosidade, em um episódio que deixou de ser apenas uma discussão política e chegou à Justiça.
A disputa nos tribunais
O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou a retirada de publicações que apresentavam como verdadeira a informação sobre a suposta intenção de Flávio Bolsonaro. Depois, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, derrubou essa decisão e determinou o restabelecimento das publicações removidas pelo mesmo fundamento.
O caso colocou lado a lado duas preocupações: o combate à desinformação e o risco de censura. As redes sociais se tornaram o espaço em que a imagem da santa foi associada à campanha, enquanto a Justiça Eleitoral e o Supremo passaram a decidir sobre a permanência ou não do conteúdo.
A existência de uma proposta anterior ajudou a alimentar a discussão. Em 2007, o então deputado Victorio Galli apresentou um projeto de lei para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. A proposta foi arquivada em 2008. Esse episódio, contudo, não comprova a informação atribuída a Flávio Bolsonaro.
A controvérsia também expôs a diferença entre a devoção religiosa e o uso político de símbolos religiosos. A santa foi apresentada em imagens, vídeos e mensagens eleitorais sem ter participado da campanha. O debate sobre sua presença na disputa, portanto, foi produzido por candidatos, apoiadores, adversários e usuários das redes sociais.
Nossa Senhora Aparecida já havia sido mobilizada politicamente em outros momentos da história brasileira. A mudança, agora, está na velocidade de circulação das mensagens: uma imagem ou um vídeo pode alcançar o debate eleitoral rapidamente e transformar uma informação em disputa pública e judicial.
A eleição termina, os vídeos perdem alcance e os candidatos deixam a campanha. A devoção, porém, permanece. O episódio mostra como uma referência religiosa pode ser deslocada para a disputa pelo voto e passar a carregar significados diferentes conforme o olhar de políticos, marqueteiros, influenciadores, adversários e fiéis.
A questão central não é a quem Nossa Senhora Aparecida pertence, mas por que sua imagem foi colocada no centro de uma disputa eleitoral. Religião, política e liberdade de expressão passaram a ser discutidas ao mesmo tempo, enquanto a santa se tornou personagem de uma eleição presidencial sem ter pedido voto, publicado vídeo ou participado das decisões judiciais.



