RIO DE JANEIRO — O aumento dos gastos públicos com segurança não tem produzido, necessariamente, melhores resultados na proteção da população. A análise dos orçamentos estaduais mostra que a maior parte dos recursos é direcionada ao policiamento ostensivo, enquanto investigação, perícia, reinserção social e condições de trabalho dos policiais ficam em segundo plano.
No Rio de Janeiro, a segurança pública deverá receber R$ 19,4 bilhões em 2026. O valor supera os recursos previstos para saúde, de R$ 13,5 bilhões, e educação, de R$ 10,9 bilhões. Ainda assim, o estado reúne indicadores negativos: lidera o número de policiais mortos no país, apresenta uma das maiores taxas de letalidade policial e está entre os estados com mais feminicídios e menos esclarecimentos de assassinatos. Também registra uma das menores taxas de apreensão de armas de fogo e uma das taxas de roubos mais elevadas.
Em 2025, o Brasil destinou R$ 163,12 bilhões à segurança pública, o maior valor da série histórica monitorada desde 2016 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os estados responderam por R$ 131,25 bilhões, ou 80,5% do total. A União aplicou R$ 18,09 bi, enquanto os municípios destinaram R$ 13,77 bi.
O modelo financiado pelos estados
O estudo Funil de Investimentos da Segurança Pública e Sistema Prisional, elaborado pela plataforma Justa, examinou os dados de 24 estados em 2024. Do total de R$ 109 bilhões destinado à segurança e ao sistema prisional, R$ 52,2 bilhões foram para as polícias militares. As polícias civis receberam R$ 20,2 bi, e as técnico-científicas, R$ 2,5 bi.
A distribuição indica uma preferência pelo patrulhamento e pelas operações ostensivas. Para Felippe Angeli, coordenador de advocacy do Justa, esse modelo atua principalmente sobre crimes em flagrante e não substitui o trabalho de investigação necessário para alcançar grandes traficantes de armas, autores de homicídios e operadores financeiros de organizações criminosas.
O mesmo levantamento apontou que, para cada R$ 4.877 aplicados nas polícias, apenas R$ 1 foi destinado a políticas voltadas aos egressos do sistema prisional. Na avaliação de Angeli, essa diferença contribui para que pessoas presas por delitos de menor complexidade sejam devolvidas a um ambiente que pode favorecer a cooptação por facções criminosas.
O crescimento dos orçamentos também não se converteu em efetivos completos ou melhores salários. Pesquisa publicada em agosto de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicou que as polícias militares, civis e penais tinham 64% do efetivo previsto pelos estados, uma diferença de 336 mil profissionais. Na Polícia Federal, o efetivo caiu 2,8% entre 2023 e o ano passado.
São Paulo aparece com o maior orçamento estadual para a área, mas ocupa a 19ª posição na remuneração média dos policiais militares e a 21ª na dos civis. O Rio de Janeiro, que tem o segundo maior gasto total, está em sétimo lugar na remuneração dos PMs e em 14º na dos policiais civis. Minas Gerais, com o terceiro maior orçamento, tem a Polícia Civil com a menor remuneração do país e ocupa a oitava posição entre os estados que melhor pagam os militares.
Custos para além da segurança
Fransérgio Goulart, coordenador-executivo da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial, afirma que os recursos têm sido usados sobretudo para ampliar operações, armamentos e estruturas de confronto, e não para câmeras, perícia ou políticas baseadas em inteligência.
A pesquisa do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense, mostrou que, entre 2007 e o ano da morte de George Floyd, quase 85% das operações policiais no Rio foram pouco eficientes, ineficientes ou desastrosas. Nesses casos, houve mais mortos e feridos do que prisões e apreensões de drogas, armas e objetos roubados.
O Instituto Sou da Paz calculou que, apenas em 2024, o Sistema Único de Saúde gastou R$ 42,3 milhões com internações de vítimas da violência armada. Carolina Ricardo, diretora-executiva da entidade, também aponta custos indiretos, como fisioterapia, perda da capacidade de trabalho e interrupções no funcionamento de escolas e unidades de saúde em locais com tiroteios frequentes.
Atualmente, seis estados têm delegacias especializadas no combate ao tráfico de armas: Bahia, Ceará, Espírito Santo, Paraíba, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Para Carolina Ricardo, o controle das armas exige investigação, perícia balística e rastreamento, porque uma arma apreendida pode ajudar a identificar uma quadrilha ou esclarecer um homicídio.
No Rio, uma política da antiga gestão de Cláudio Castro estabeleceu bônus de R$ 5 mil por fuzil apreendido. No Massacre do Alemão e da Penha, no ano passado, foram registradas 121 mortes e apreendidos 93 fuzis. Para a especialista, incentivos financeiros precisam estar vinculados a mecanismos de auditoria e a uma estratégia de investigação.
O orçamento como escolha política
As entidades ouvidas defendem que o debate eleitoral sobre segurança não se limite à promessa de aumentar o número de policiais. A proposta apresentada é combinar policiamento com investigação criminal, valorização profissional, saúde mental, urbanismo, trabalho, cidadania e políticas de reinserção social.
O Fórum Popular de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro reúne movimentos que defendem o remanejamento de recursos destinados a operações e armamentos para políticas sociais. A Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial também promove treinamentos e diálogo com parlamentares sobre o uso das emendas orçamentárias.
O debate, portanto, não envolve apenas quanto dinheiro é destinado à segurança, mas qual modelo é financiado. Um orçamento concentrado em confrontos pode ampliar operações sem enfrentar as estruturas do crime organizado, enquanto áreas como investigação, controle de armas, perícia e prevenção permanecem com menos recursos. Para os especialistas, discutir propostas de segurança sem indicar os recursos e as prioridades orçamentárias deixa incompleta qualquer promessa de política pública.



