Uma tendência recente recriou, com inteligência artificial, cenas que remetiam aos anos 1980: roupas, penteados, carros, salas de estar, festas e paisagens com aparência de álbum de família. Um elemento, porém, quase sempre ficou de fora: o cigarro. A ausência chama atenção porque fumar era uma prática presente em muitos ambientes e socialmente aceita naquela época.
Em 1989, 34,8% dos adultos brasileiros fumavam, conforme a Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição. O percentual caiu para 22,4% em 2003, 18,5% em 2008 e 12,6% em 2019, de acordo com a série histórica reunida pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca). A sequência mostra como um comportamento que já foi tratado como parte comum da vida cotidiana passou a ser visto como uma questão de saúde pública e submetido a restrições.
Quando um hábito deixa de parecer normal
Durante muito tempo, o cigarro foi associado a independência, sofisticação, rebeldia e escolha individual. A responsabilidade pelo consumo ficava concentrada no fumante, enquanto o produto e as estratégias de sua indústria permaneciam menos visíveis no debate público. A mudança ocorreu quando o tabagismo passou a ser compreendido também como um problema coletivo.
Essa trajetória oferece uma comparação possível com as redes sociais, desde que as diferenças sejam preservadas. Plataformas digitais não são nicotina, e uma notificação não equivale, do ponto de vista farmacológico, a uma tragada. O uso problemático de redes sociais também não corresponde automaticamente ao diagnóstico clínico de dependência de nicotina.
Ainda assim, há uma semelhança na forma como os ambientes de consumo podem ser organizados. O cigarro depende da repetição do uso. As plataformas, por sua vez, transformam as interações em dados e empregam essas informações para selecionar novos estímulos. Rolagem infinita, notificações, reprodução automática, recomendações personalizadas e métricas públicas de aprovação podem dificultar a interrupção.
A lógica não exige a afirmação de que o celular sequestra a dopamina. É suficiente observar que o usuário não sabe quando encontrará a próxima curtida, mensagem, notícia, provocação ou forma de validação. Essa incerteza contribui para que continue olhando, enquanto o sistema aprende quais conteúdos prolongam sua permanência.
O indicador entre adolescentes
Um relatório da Organização Mundial da Saúde para a Europa, baseado na pesquisa HBSC, registrou aumento na proporção de adolescentes classificados como usuários problemáticos de redes sociais. O índice passou de 7% em 2018 para 11% em 2022. Entre meninas, alcançou 13%; entre meninos, ficou em 9%. O levantamento reuniu quase 280 mil adolescentes de 44 países e regiões.
O indicador não mede apenas o tempo diante da tela. Ele considera perda de controle, dificuldade de interromper o uso, sintomas semelhantes à abstinência, abandono de outras atividades e efeitos negativos na rotina. Por isso, uso intenso e uso problemático não são sinônimos.
Os percentuais do tabagismo e das redes sociais não podem ser comparados como se representassem o mesmo fenômeno. Eles se referem a populações, períodos, métodos e condições diferentes. Em 1989, 34,8% dos adultos brasileiros fumavam. Em 2022, 11% dos adolescentes pesquisados pela Organização Mundial da Saúde apresentavam sinais de uso problemático de redes sociais. A proximidade numérica não autoriza uma equivalência, mas ajuda a formular uma questão: por que a compulsão digital ainda costuma ser tratada como falta de disciplina, desatenção dos pais ou fraqueza moral do adolescente?
Em 2026, a Academy of Medical Royal Colleges (AoMRC), que reúne os principais colégios médicos do Reino Unido, publicou um relatório no qual classificou as redes sociais e o uso excessivo de telas como uma ameaça à saúde de crianças e adolescentes que deveria receber a mesma seriedade historicamente dedicada ao tabagismo. A entidade recomendou que médicos perguntem regularmente a crianças e jovens sobre tempo de tela e uso de redes sociais, assim como fazem em relação a tabaco, álcool e outras exposições de risco.
A formulação é importante: a AoMRC comparou a gravidade da ameaça à saúde pública e defendeu a investigação clínica rotineira. Não afirmou que redes sociais e cigarros provocam a mesma dependência, nem que usar um aplicativo equivale ao consumo de nicotina.
Do indivíduo ao ambiente
A orientação para simplesmente desligar notificações, reduzir o uso ou estabelecer limites pode ajudar, mas desloca novamente a responsabilidade para o indivíduo quando o ambiente foi planejado para tornar a interrupção difícil. Essa é uma das lições possíveis da história do cigarro: hábitos coletivos não mudam apenas pela recomendação de autocontrole.
A queda da prevalência de fumantes adultos, de 34,8% em 1989 para 12,6% em 2019, indica que conhecimento, política pública e pressão social podem alterar o lugar de um produto na rotina. O cigarro não desapareceu, mas deixou de ser invisível e perdeu a condição de presença banal em muitos espaços.
A pergunta sobre as redes sociais, portanto, não é se elas são idênticas ao tabaco. Não são. A questão é se uma indústria baseada na captura contínua da atenção deve permanecer sendo analisada apenas como uma soma de escolhas individuais. O desafio está em reconhecer os mecanismos que organizam esse uso antes que pareçam tão naturais quanto o cigarro um dia pareceu.



